O Parlamento na mira da Transparência Internacional


A notícia passou quase despercebida, mas é séria. Sobretudo quando se inicia uma nova legislatura. 
Foi o caso de o vice-presidente da organização não governamental Transparência Internacional em Portugal, Paulo Morais, ter afirmado esta sexta-feira que “dos 230 deputados [da anterior legislatura], 30 por cento, 70, são administradores ou gestores de empresas que têm directamente negócios com o Estado”.

Paulo Morais apontou o sector do urbanismo como aquele em que a situação é mais grave e citou o caso da Comissão Parlamentar de Obras Públicas que, segundo disse, integra vários deputados com interesses profissionais  nessa área.

Mas Paulo Morais disse mais. Disse também que  “a legislação vem dos grandes escritórios de advogados, principalmente de Lisboa, que também ganham dinheiro com os pareceres que lhes pedem para interpretar essas mesmas leis e ainda ganham a vender às empresas os alçapões que deixaram na lei”.

As afirmações de Paulo Morais, corroboradas pelo Bastonário da Ordem dos Advogados, são demasiado graves para passarem em claro. Ocorre então perguntar porque razão a situação não foi denunciada antes  por parte da Transparência Internacional em Portugal. E sobre o poder judicial há que perguntar se não dá crédito à Transparência Internacional.  

E que dizer da investigação jornalística? Será que só há notícias sobre alegados casos de corrupção quando alguma fonte judicial ou policial “pinga” para os média casos seleccionados? Ou quando dá aos jornalistas “acesso” a escutas telefónicas?

Até prova em contrário, as afirmações do vice-presidente da Transparência Internacional em Portugal não passam de retórica. Mas se tiverem fundamento, não se compreende que não as tenha concretizado, apresentando factos. 

Não se compreende que altos responsáveis façam discursos e declarações bombásticas em discursos generalistas e abstractos lançando lama sobre pessoas, para mais quando essas pessoas são ou foram deputados da Nação, por definição, obrigados a uma honestidade à prova de bala.

Porém,  também estes  não pode ficar em silêncio perante acusações deste teor, sob pena, aí sim, de a sua descredibilização se tornar irremediável. Até para que o novo Parlamento possa prevenir  casos que, porventura, necessitem de ser acautelados.

 

About these ads
Esta entrada foi publicada em Jornalismo, Justiça, Política, Sociedade. ligação permanente.

4 respostas a O Parlamento na mira da Transparência Internacional

  1. Pingback: A corrupção e as percepções sobre a dita | VAI E VEM

  2. Pingback: Senhores deputados: porque se calam? | VAI E VEM

  3. Jose Rodrigues diz:

    Pela 1ª vez tomei ontem conhecimento desta Organização através da entrevista de Paulo Morais e Marinho Pinto na SIC e sinceramente fiquei muito satisfeito pela forma cuidada mas categórica como foram denunciadas alguns acontecimentos ligados a esquemas nada transparentes que indiciam existencia de corrupcção. Parabens pelo serviço publico, desejando que não seja possivel calar esta organização.
    Cumprimentos

  4. aires diz:

    excelente analise de Paulo Morais, e sua, de seu artigo de reflexão, que devia ser exaustivamente aprofundada, com numeros mais detalahados, ja que obviamente, p.e. a ligação dos escritorios de advogados ao poder politico, como diz MPinto, é mui preocupante

    Mais uma vez obrigado por trazer “questões realmente estruturais” para o debate.

    Abraço

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s