Jornalismo e interesse nacional

O Expresso publicou este sábado um novo estatuto editorial  onde expõe um conjunto de princípios orientadores do jornal organizados em 10 pontos.

A publicação do estatuto editorial não é acompanhada de qualquer informação adicional. Contudo, dado que a sua elaboração  é da responsabilidade do director e o Expresso tem desde o início deste ano um novo director – Ricardo Costa – é  natural que este tenha desejado introduzir alterações ao anterior estatuto.  Os pontos  7  e 8 do novo estatuto são particularmente importantes. Dizem o seguinte:

“(…) 7. O Expresso sabe, também, que em casos muito excepcionais, há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas, não por auto-censura ou censura interna, mas porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional. O jornal reserva-se, como é óbvio, o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério. 

8. O Expresso sabe, igualmente, que a publicação insistente de determinados assuntos – do crime e do sexo às baixezas da vida política e económica – poderia aumentar a venda de exemplares, mas recusa-se a alimentar qualquer tipo de sensacionalismo que ponha em perigo o jornalismo de qualidade que sempre pretendeu fazer. Respeita, acima de tudo, os leitores e está consciente de que eles aceitam e desculpam os erros que o Expresso comete, mas que não lhe perdoariam se, deliberadamente, por acção ou por omissão, os enganasse ou abusasse da sua boa fé.”

Estes dois princípios não são de fácil decifração para o  leitor comum. E mesmo para um leitor mais familiarizado com o trabalho jornalístico os dois pontos citados suscitam algumas reflexões. Por exemplo:

–  a que tipo de notícias se refere o estatuto editorial que poderiam merecer ser publicadas com destaque e não o são em nome do interesse nacional?

– a que se refere o texto quando recusa a “publicação insistente” das “baixezas de vida política e económica” que podendo “aumentar as vendas de exemplares”, põem “em perigo o jornalismo de qualidade”?  Será que se refere a escândalos do tipo Freeport, submarinos, Portucale,  que há bem pouco faziam manchete ou tinham relevo no próprio Expresso?

– ou será que o estatuto editorial pretende (indirectamente) “avisar” não só os seus jornalistas mas também certas fontes de que doravante escutas telefónicas a políticos e homens de negócios e outros casos em segredo de justiça não terão acolhimento no Expresso?

– ou será que se trata de  um estatuto editorial elaborado a pensar  na crise em que o país se encontra que  justifica, no entender do Expresso, um jornalismo mais “contido” para não prejudicar a imagem de Portugal?

Coincidência ou não, na mesma edição do Expresso – caderno Economia -Nicolau Santos, director-adjunto do jornal, depois de elogiar e desejar felicidades ao novo governo, escreve na primeira coluna da pág. 5, último período, o seguinte: “(…) Daí a criar-se uma unanimidade nacional e a quase proibição de reparos ou críticas ao Governo vai um passo de gigante que o jornalismo livre e independente não pode nem deve aceitar”

Não é hábito em Portugal um órgão de comunicação social invocar tão claramente o “interesse nacional” para não publicar determinadas notícias que “mereceriam destaque”.

Maior transparência é difícil, porém, trata-se de uma decisão não isenta de riscos, dependendo dos critérios que serão adoptados para definir o que é, para o Expresso, o interesse nacional. Uma definição casuística e não apriorística desse conceito poderá ser vista como problemática pelos seus leitores.

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21 respostas a Jornalismo e interesse nacional

  1. JR diz:

    Sei que estes comentários já são antigos, mas alguém me pode indicar como posso encontrar o Estatuto Editorial do Expresso de 1973

  2. Tudo indica que o Estatuto Editorial do Expresso não sofreu nenhuma alteração este ano. O Estatuto não é alterado, pelo menos, desde 8 de Fevereiro de 2008.

    O assunto foi investigado aqui:

    Blog “Sobre Literacia Digital”:
    Como ver a versão antiga de uma página web | Estatuto Editorial do Expresso

    É claro que comprovar que o texto do Estatuto já está assim, pelo menos, desde 2008 não o torna menos polémico ou discutível…

  3. Pingback: Como ver a versão antiga de uma página web | Estatuto Editorial do Expresso « Sobre Literacia Digital

  4. Pingback: Ainda o jornalismo e o interesse nacional | VAI E VEM

  5. EGR diz:

    Ha muito que o Expresso deixou de ser o jornal que se comprava com gosto porquanto se sabia ir nele encontrar-se rigor na noticia,opiniões diversersificadas e de qualidade; o Expresso passou a ser o jornal do senhor Henrique Monteiro e da sua perseguição a Sócrates-ah a célebre Comissão de Inquerito – o ódio vesgo e mal educado do senhor Coutinho, das teses de João Duque.Rui Ramos,Luís Marques, das ficções de Angela Silva
    Mais,recentemente,, eis que decidiram brindar os leitores com Martim Avilez de Figueiredo,Maria Filomena Mónica e Mário Crespo este ultimo como se sabe um verdadeiro herói da luta pela liberdade de expressão em Portugal
    Esta questão do Estatuto Editorial é apenas a gota que faltava para,finalmente, tomar uma decisão há muito adiada: não contribuirei mais para sustentar essa gente.

  6. Acho que se está a exagerar uma questão que é antiga. O estatuto não é novo, vem de directrizes antigas e, pelo que percebi, do simples facto que existem notícias, veja-se o caso dos Wikileaks, que podem ser muito prejudiciais a um país. O jornal reserva-se ao direito, vendo as situações caso a caso, de não publicar o que possíveis notícias que sejam prejudiciais ao interesse nacional. E o interesse nacional não é o interesse de um partido em particular, ou de um Governo. É uma salvaguarda que pode ser vista sob dois prismas: quem acredita na desejo de imparcialidade e jornalismo de qualidade do Expresso não vê mal nisso, quem não acredita nos membros do jornal vê ali censura e mau jornalismo à partida. Eu estou no primeiro grupo, até prova em contrário.

  7. Pingback: Será que alguém anda a tentar calar os comentadores do PSD? | VAI E VEM

  8. Anónimo diz:

    este estatuto editorial do Expresso não é novo. É o mesmo de 1973 e que foi revisto em 2006. O que foi publicado no último sábado, por razões legais, é extamente igual ao de 2006.

  9. Anónimo diz:

    SEGURA-TE RICARDO COSTA. Jamais te via capaz de utilizares o tão famoso LAPIS AZUL, com as alterações que introduziste no Estatuto Editorial. Está vendido ao Pinto Balsemão ” Atenção criticas ao Pedro Passos Coelho estão PROÌBIDAS. VERGONHA

  10. Pingback: Definir ‘Interesse Nacional’ @ semiose | - Res Publica

  11. Rupro diz:

    Os jornais não são mais do que PROPAGANDA feita a favor dos seus DONOS!

  12. Anónimo diz:

    Para mim é censura pura e dura apenas camuflada! Quem manda não é o governo são os interesses económicos discutidos em reuniões do tipo club billderberg do qual é membro conhecido o francisco pinto balsemão que é o manda chuva do grupo impresa que é dono do expresso!! Isto é só a minha ideia mas eu sou só um pedreiro…

  13. Luis Maia diz:

    Quando veio a público o caso BPN, eu ouvi Ricardo Costa dizer na TV que já TODA A GENTE SABIA O QUE LÁ SE PASSAVA.
    Se toda a gente sabia, porque razão a SIc-Noticias e ou o Expresso não publicaram essa notícia ? Que interesse nacional presidiu a essa não publicação ?

  14. Mário Moniz diz:

    Mantenho algum apreço por Ricardo Costa que provém da sua capacidade de reconhecer que se engana. Quero acreditar na sua independência. Mas sou dos que pensam que não há independência nacional que esteja acima da verdade e da denúncia da corrupção. A ver vamos…

  15. S. Bagonha diz:

    Não, nada disso. Trata-se ainda da tão proclamada asfixia democrática e falta de liberdade de informação praticada por José Sócrates e o seu Governo. Só que tem andado perdida, sabe Deus por onde, e só agora chegou ao Expresso.

  16. Manteigas diz:

    Para mim Expresso, Público e quejandos há muito deixaram de me custar dinheiro. Bem hajam por, com as suas não notícias, me terem livrado desse encargo. E daqui incentivo os outros a fazerem o mesmo. Se eles não venderem bem podem dar os jornais para embrulhar castanhas que é para isso que hoje em dia servem.

  17. Retirado do Estatuto Editorial da Exame Informática online. Já lá está há, pelo menos, um mês:

    7. A Exame Informática sabe, também, que em casos muito excepcionais, há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas, não por auto-censura ou censura interna, mas porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional. O jornal reserva-se, como é óbvio, o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério.

    Parece ser algo que se generaliza dentro da Impresa Publishing.

  18. Acho muito interessante, em vários aspectos. Primeiro, o momento: há um novo Governo e uma nova maioria na AR. A coincidência da decisão do Expresso com esta nova realidade é, no mínimo, suspeita, à luz do chamado “Cepticismo Saudável”. Depois, o “interesse nacional”, que eu gostava de ver definido no Expresso para poder avaliar em concreto da bondade do novo Estatuto Editorial. Eu, na minha ingenuidade, tenho para mim que o “interesse nacional” passa por um jornalismo com verdade (aquela a que conseguirmos chegar) e com factos. Mas ainda bem que o Expresso assume que a partir de agora vai “peneirar” as notícias que vai publicar. Assim, já sabemos todos, que nem tudo o que é Notícia vem no Expresso. Paz à sua alma.

  19. António Ferreira diz:

    A questão do “interesse nacional” é muito interessante.
    Caminhamos para um situação em que os partidos políticos são unanimemente (pelo menos os do bloco central) a favor das medidas da troika e a imprensa idem.
    A imprensa anda numa roda viva de propaganda pró-governo. Um bom exemplo, deu-se esta semana com a Lusa a reportar, despedimentos de cerca de 350 trabalhadores no estaleiro de Viana, e o país embasbacado a olhar para o spinning das viagens em económica de Passos e do périplo por Bruxelas.
    Então, uma imprensa tão zelosa como nos últimos anos da anterior legislatura, aparece agora tão mansinha em nome do “interesse nacional”?
    Nisso, os homens são como os canídeos: gostamos sempre quando o dono nos afaga o focinho e nos dá um osso.

  20. LPA diz:

    Já deve ser Pinto Balsemão a prevenir-se de críticas a Passos Coelho e outros…

    LPA

  21. Pingback: Expresso não destacará “notícias nocivas ao interesse nacional” : Ponto Media

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