Ainda o jornalismo e o interesse nacional

A propósito deste post  no qual  comentei  o conteúdo dos n.ºs 7 e 8 do estatuto editorial do Expresso,  interrogando-me sobre o significado do conceito de “interesse nacional” contido no n.º  7 daquele estatuto, o director, Ricardo Costa, telefonou-me  informando-me que aqueles preceitos se encontram no estatuto editorial do Expresso desde 1973. 

De facto, já em 2008 o mesmo estatuto foi republicado, pelo que me penalizo por não o  ter lido nessa altura.  Estranho que tantas pessoas (incluindo jornalistas) não o conhecessem,  a avaliar pelos comentários que se seguiram à sua republicação. Verifiquei que em 2008 o estatuto surge numa das duas páginas em que foi publicado o Relatório e Contas em letra ultra minúscula pelo que só quem soubesse que ele estava lá o encontraria. De qualquer modo, Ricardo Costa tem razão, sobretudo porque ao contrário do que eu escrevi não só não lhe cabe a autoria do conteúdo dos artigos 7. e 8.º, como também as alterações sofridas são anteriores à sua chegada ao Expresso. Em suma, o estatuto editorial do Expresso vem de 1973, tendo sofrido apenas algumas alterações, porém mantendo desde então  os pontos  7 e 8.

Feita a devida rectificação a perplexidade não desaparece, na medida em que não deixa de ser inesperado que o conceito de “interesse nacional”  transite sem alteração de um período em que a censura à imprensa  se encontrava instituída para os tempos de hoje, de plena  liberdade de imprensa, atravessando ainda o período revolucionário pós 25 de Abril. 

Assim, das duas uma: ou os estatutos editoriais são apenas documentos simbólicos sem valor real, que se moldam aos intérpretes e às épocas, sendo indiferente por exemplo, que o “interesse nacional” em 1973 fosse o da ditadura e da censura à imprensa, o de 1975 o do “Verão quente”, o de 20011 o da “crise económica”… ou então, era preciso dizer  o que cada direcção (que o readoptar) entende por esse conceito, uma vez que da sua interpretação depende o que o jornal publica ou não publica.

Não discuto nem duvido das fortes convicções em prol da defesa de um jornalismo livre de quem dirige o Expresso, em particular do seu fundador, apenas não o considero intocável e indiscutível.

Todos sabemos que os jornais não publicam tudo o que sabem e que o que publicam resulta de escolhas de quem os faz e sobretudo os dirige. Sempre assim foi e será porque as notícias que lemos, vemos e ouvimos são apenas “construções da realidade”, não são a realidade. Nada de estranho há nisso. Desde que não se pense que o mundo e a “verdade” cabem por inteiro  nas notícias que nos dão.

Antes de terminar, nem de propósito: acabo de ouvir na SIC Notícias, precisamente o director do Expresso, num debate sobre o programa do Governo, a dizer que  Bernardo Bairrão, (convidado e desconvidado para secretário de Estado) foi vítima de uma “campanha baixa” nos dois últimos dias, uma coisa que não devia ter acontecido, uma estória “complicada e triste”.

O director do Expresso não concretizou a estória do afastamento de Bernardo Bairrão  e não sei se o fará na próxima edição do  Expresso. Mas ficou claro que sabe muito  mais do que disse na SIC Notícias. Se não publicar o que sabe é legítimo pensar que a omissão se funda no disposto nos  n.ºs 7 e 8 do estatuto editorial do jornal, isto é,  ou o “interesse nacional” (n.º7) ou “baixeza da vida política”( n.º 8 do estatuto editorial).

É que se  deduz das palavras do director do Expresso e também deste artigo do Diário Económico que há alguma coisa que falta conhecer sobre este caso. Ora,  em nome da liberdade de imprensa e do direito dos cidadãos à informação o que houver deve ser dito.

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Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Jornalismo, Sociedade. ligação permanente.

4 respostas a Ainda o jornalismo e o interesse nacional

  1. Pingback: Revelações na Quadratura | VAI E VEM

  2. S. Bagonha diz:

    Onde se lê “parece que ninguém os leu?” deve ler-se “Será que ninguém os leu?”
    As minhas desculpas (a pressa, a pressa…)

  3. S. Bagonha diz:

    Eu só me pergunto é onde teriam os srs. do Expresso metido os célebres artigos 7º. e 8º. do estatuto editorial durante o período em que José Sócrates foi P.M. parece que ninguém os leu?Será que, como já vêm de 1973, e desse tempo já só deve restar o tio Balsemão, que com a idade coitado, já nem se lembraria deles, ninguém da direcção e do corpo editorial recentes teria conhecimento dos referidos artigos? E vejam lá (ele há coincidências do catano…) logo agora que há um governo PSD fresquinho, como num passe de mágica, um simples estalar de dedos ou um súbito recuperar de memória, tira-se o “coelho” da cartola e zás!!! Saem dois artigos, o 7º e o 8º do estatuto editorial, bem frescos e à pressão. Ele há coisas… Como dizia o outro, “não acredito em bruxas, mas lá que elas existem…”

  4. Pingback: Expresso não destacará “notícias nocivas ao interesse nacional” : Ponto Media

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