Quem tem medo do “casal Moniz”?

Este sábado, o Expresso relata uma situação insólita e impensável da qual é possível extrair as seguintes ilações: 

 Uma jornalista casada com um director de um grupo de comunicação social candidato a um canal de televisão, sentiu-se à vontade e com suficiente confiança com o primeiro-ministro  para  lhe enviar um SMS a dar-lhe conhecimento de (alegados) factos graves relativos a  uma pessoa que o primeiro-ministro ia nomear como secretário de Estado, sendo que essa pessoa era até então  administrador de um grupo de televisão onde a denunciante e o seu marido  ocuparam cargos de direcção até há pouco tempo;

–  o SMS enviado pela jornalista “assustou” o primeiro-ministro e o “núcleo político” do Governo que, embora não tendo chegado a nenhuma conclusão sobre as denúncias contra o indigitado secretário de Estado, o afastaram; 

– “o Governo entrou em pânico com pressões e cedeu”;

– o grupo de comunicação social a que pertence o marido da denunciante é candidato a um canal de televisão por via da  privatização da RTP sendo este um objectivo inscrito no programa do Governo;

A denunciante fora afastada do grupo de comunicação e do programa que possuía pela administração a que pertencia o indigitado secretário de Estado; antes, já o seu marido abandonara o mesmo grupo para ocupar um cargo directivo noutro grupo de comunicação social; 

A denunciante foi autora e apresentadora de um programa de televisão, no grupo de comunicação social  de que o seu marido era director-geral,  em que o anterior primeiro-ministro foi alvo sistemático de acusações de corrupção e de fugas de informação nunca provadas pelo poder judicial;

– Estes acontecimentos foram desmentidos pela alegada denunciante e pelo seu marido mas não pelos restantes protagonistas mencionados, isto é, o primeiro-ministro e o “núcleo político” do Governo;

O relato refere-se, como se percebe, ao “caso” Bernardo Bairrão versus “casal Moniz” e veio  tornar mais explícitas as estórias que outros jornais e canais de televisão, através de comentadores e de jornalistas, já tinham deixado no ar, como abordei aquiaqui, porém, sem os detalhes agora vindos a público.

Independentemente das pessoas envolvidas nos  acontecimentos relatados pelo Expresso, o caso reveste-se de contornos impensáveis e coloca um conjunto de questões que deveriam ser esclarecidas com toda a clareza, caso contrário estaremos perante um caso de promiscuidade entre pessoas ligadas a grupos e interesses na comunicação social e o poder político

De facto,  não há memória,  em Portugal, de uma jornalista denunciar por SMS, para o telemóvel do primeiro-ministro, um seu antigo patrão que ia tomar posse como membro do Governo e com isso conseguir que ele fosse retirado  à última hora.  

Acontecimento tão insólito não pode ficar sem uma completa explicação da parte dos intervenientes, desde logo, do Governo.


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6 respostas a Quem tem medo do “casal Moniz”?

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  3. Deolindo Silva diz:

    Hélas!,Finalmente vislumbrou-se alguma luz ao fim de alguns dias de jornalismo de adivinhação.Eu,um simples cidadão comum, sem qualquer pretenção em ser jornalista ou comentador político,não posso deixar de ficar perplexo com tal sórdida estória.A promiscuidade entre política e médias ultrapassa,de longe, a minha imaginação.Pobre democracia esta em que um primeiro ministro se verga perante a denuncia de uma personalidade que,enquanto pivot de um jornal televisivo,demonstrou uma total falta de ética profissional.Ainda hoje recordo (para mal dos meus pecados),aquelas insinuações e sorrisos cínicos trocados com o companheiro Vasco.

  4. aires diz:

    “Isto” é de facto uma “vertigem” de comportamentos e jogadas
    bem preocupante…
    e curiosamente os bens pensantes
    que tanto se movimentaram noutras alturas
    estão nas covas…
    não será tudo isto
    materia para um inquerito parlamentar
    que esclareça como lobbies de interesses interferem no devir politico
    nomeadamente na nomeação de menbros do Governo????

    E o Venerando
    que tanto se incomodou quando a mesma protagonista
    foi retirada de antena na tvi
    agora nada diz?

    enfim…

  5. Meu caro Amigo, obrigada pelo seu comentário, conheço o seu pensamento sobre o facto de sendo eu membro da ERC escrever neste blog sobre comunicação social mas, como já tive já oportunidade de lhe dizer, este blog nasceu porque na minha qualidade de cidadã, exercendo temporariamente um cargo público, senti que tinha o direito e até o dever de intervenção fora da esfera institucional da ERC em matérias que considero de interesse público e/ou académico e que não via tratadas noutros espaços. Impus contudo a mim mesma a regra de não me pronunciar neste espaço sobre assuntos e casos em apreciação na ERC, pelo menos até que esta se pronuncie sobre eles. Acresce que as minhas análises e comentários não se inscrevem nas competências da ERC, representando apenas a minha visão pessoal. Por exemplo, o “caso Bairrão” é um “case study” fascinante para a área que tenho estudado que é a da relação entre política e jornalismo.
    Espero que no seu regresso a Portugal possa enriquecer com os seus textos, e a competência e o saber que possui relativamente aos média europeus, a análise dos média nacionais Um abraço e até breve.

  6. J.-M. Nobre-Correia diz:

    Confesso ter uma certa reserva em relação ao facto de uma vogal (e um presidente) da ERC assumirem um blogue sobre matérias que são da competência da ERC. Dito isto, este blogue reflecte uma qualidade de questionamento, de argumentação e de análise formidável, muitas vezes brilhante.

    Ao ler os três últimos comentários de Estrela Serrano sobre o “caso Bernardo Bairrão”, experimento uma sensação de vertigem. Falou-se muito estes dia de Mónaco, “principado de opereta”, que de facto é. Mas o meio político-mediático lisboeta toma cada vez mais ares de verdadeiro microcosmos de opereta. Mas de opereta trágica, em que a noção de democracia (no sentido forte da palavra) está totalmente ausente do seu funcionamento.

    Vivendo há quarenta e cinco anos no estrangeiro e contando instalar-me em Portugal nos próximos meses, este ambiente de guerrilha entre clãs mafiosos político-médiáticos arrepia-me, pura e simplesmente…

    J.-M. Nobre-Correia, mediólogo, professor em informação e comunicação na Universidade de Bruxelas (ULB).

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