estórias de ricos de antigamente…

Quando eu era miúda era costume as famílias alentejanas “ricas” passarem férias na Figueira da Foz. Na altura falava-se de “ricos”  mas não se sabia a quanto ascendia a sua riqueza. Não era como hoje, com  os jornais a dizerem quanto valem as fortunas dos Amorins, dos Soares dos Santos, dos Belmiros…

Muitos alentejanos “ricos” alugavam casa na Figueira da Foz para os 3 meses de Verão. Tinham em geral 4 ou 5  filhos e  várias “criadas”  que iam de férias com eles. A viagem fazia-se em  vários carros e em cortejo, com farnel a meio do caminho, e as malas grandes iam de combóio. A bagagem começava a ser feita com semanas de antecedência: levava-se quase tudo, roupas de cama, toalhas de mesas, louças, etc. É que havia sempre mais gente aos fins de semana e era preciso manter o “nível”… 

Conheci de perto uma dessas famílias e passei algumas férias com ela.  A casa alugada, na rua Fresca, ficava reservada de ano para ano.  Era uma casa enorme mas a construção não era grande coisa. Lembro-me de acordar durante a noite porque  a cozinheira, a senhora Chica , que dormia no quarto ao lado do quarto das crianças, ressonava alto e bom som e não me deixava dormir. Desesperada,  chorava devagarinho, cabeça debaixo da almofada, porque sempre tive um “ouvido de tísica”. Tinha vergonha de dizer porque a senhora Chica era quem mandava na casa, uma espécie de governanta….. As “criadas” não tinham subsídios e eram como se fossem “da família”. Casavam e morriam a “servir” e não faziam reivindicações.

De manhã a família ia para a praia. Alugavam-se “barracas” na fila detrás e uns toldos mais à frente. As barracas serviam para mudar de roupa porque não era costume a miudagem regressar a casa com os fatos de banho molhados (na família ninguém usava bikini). Os rapazes, mais malandros, espreitavam as raparigas a trocarem de roupa e estas atiravam-lhes areia para os olhos. E havia o Catitinha, uma figura lendária atrás de quem as crianças corriam para lhe apertarem a mão mal ouviam o  apito que ele trazia sempre consigo.

Catitinha

O banho de mar era só de manhã porque o mar era bravo. À tarde, depois da sesta, voltava-se à praia e jogava-se ao “prego” e ao “mata”. À noite as “famílias” passeavam no “picadeiro”, nas esplanadas, desciam a Rua Cândido dos Reis, as crianças iam aos “carros eléctricos”, comiam-se “brinhóis” e gelados e ía tudo dormir à mesma hora. Nos domingos havia  as matinés no Casino, as “corridas de sacos”, os bailaricos e namoricos, e as garraiadas infantis.

Hoje as férias democratizaram-se, já não há “criadas” nem os “ricos” alugam casas por 3 meses. Ficam em hotéis, em resorts, no Algarve, no Brasil, nas Caraíbas, ou fazem cruzeiros…. Dificimente se encontram por aí.  

Os “ricos” de agora misturam-se menos com os pobres e os remediados. Mas temos o jet sete, cujas férias são mais vistosas. Nas festas da “noite” exibem o bronzeado e roupas emprestadas a troco de uma fotografia nas revistas de “sociedade”.  Não são ricos, mas tentam sê-lo. Alguns estão como o país: cheios de dívidas.

Num Agosto tristonho, sem sol e com chuva dá-me para estas lembranças….

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6 respostas a estórias de ricos de antigamente…

  1. Tem razão, não falei dos espanhóis que inundavam a Figueira…obg por me ter lembrado.

  2. Anónimo diz:

    Era exactamente assimoambiente da Figueira dos anos 50 e 60 ue é a minha época. A única coisa que falhou na narrativa foi falar dos espanhóis que inundavam literalmente esta estancia balnear e que emprestavam ao ambiente um calor euma alegria tão características deles. Lembro-me das criadas que traziam, calçadas e fardadas de tons muito claros e das crianças que passeavam sempre encantadoras e cujas toilettes eram copiadas pelas mães portuguesas.
    Hoje a Figueira continua linda mas o que mudou foi a paisagem humana e essa nuncamais voltara a ser o que era.

  3. IsabelPS diz:

    “Os “ricos” de agora misturam-se menos com os pobres e os remediados.”

    É, não é?

    Deus (que não existe, como dizia um amigo meu) me perdoe, mas às vezes penso que esta “crise” que faz os pais tirarem os filhos dos colégios particulares para os porem na escola pública ainda pode vir a ser a salvação da Pátria.

  4. Obg, caro Evaristo, estórias não faltam…

  5. Nunca se arrependa de relatar uma boa história, como esta da sua infância. Ainda para mais quando são enriquecidas com imagens a condizer. Boas férias.

  6. abustorff diz:

    era assim mesmo…
    excelente post que estas coisas devem todas ser retidas
    e comparadas
    no sentido que cada um bem entender
    abraço

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