A dupla desilusão dos analistas

A imprensa deste fim de semana reflecte em artigos de opinião, em geral da autoria de jornalistas, alguma desilusão com o novo governo, como demonstram títulos como “Não desesperemos, todavia” (Expresso, Miguel Sousa Tavares); A Lista de Passos” (Expresso, Fernando Madrinha)As boas intenções e a perpetuação do clientelismo” (Público, São José Almeida); Um roubo ainda sem ladrões” (Diário de Notícias, João Marcelino), entre outros.

Os fundamentos da “desilusão” são vários e foram-se acumulando: as 51 nomeações de assessores, especialistas, secretárias e motoristas divulgadas no site oficial;  as nomeações para a administração da Caixa Geral de Depósitos, a venda do BPN, a prestação, no Parlamento, do ministro da Economia; as insuficiências do Plano de Emergência Social…

Os analistas confrontam as promessas eleitorais do líder do PSD e primeiro ministro com as decisões conhecidas. Porém, há que  perguntar se os analistas, em particular os jornalistas,  pensavam que Passos Coelho tentaria chegar ao poder sem usar  a demagogia  eleitoral de que nenhum político é capaz de abdicar.

Olhando para as  nomeações para os gabinetes ministeriais, o que causa espanto não são as nomeações em si, mas o facto de tantos jornalistas experientes no acompanhamento da actividade política se “espantarem” com elas, como se fosse possível acreditar que o  líder do PSD com uma varinha de condão viesse de repente mudar o modo de funcionamento do seu partido que é, nesse aspecto,  igual aos restantes à esquerda e à direita.

Quanto aos nomeados, a chamada “transparência” na divulgação dos nomes está a causar amargos de boca ao governo.  Já não é apenas Pacheco Pereira a questionar a ausência de divulgação dos currículas dos nomeados, também Manuela Ferreira Leite o faz este sábado na sua coluna do caderno Economia do Expresso (link indisponível). De facto, saber nomes, idades, cargos e vencimentos não é o essencial. O essencial será conhecer  o curriculum de cada um e o conteúdo do cargo que ocupa. Acontece porém que, em muitos casos, nem isso  é necessário, nomeadamente quanto aos jornalistas que transitaram directamente das redacções de vários órgãos de comunicação social para gabinetes ministeriais. De facto, embora os jornalistas não gostem de  falar em público dos colegas que se “passam para o outro lado”, a verdade é que sabem muito bem porque é que tantos não resistem a um convite para um gabinete governamental. 

É óbvio para quem acompanha as notícias  (como é o caso dos jornalistas) e  para quem estuda o jornalismo, que no respeitante às  movimentações de jornalistas para os gabinetes, geralmente para funções de assessoria de imprensa,  elas se devem a simpatias e afinidades pessoais ou políticas e não a qualquer preparação prévia dos nomeados para essa actividade – que é, aliás, legalmente incompatível com a actividade de jornalista.  Se a contratação de assessores de imprensa se baseasse em habilitações próprias para essa função, os políticos não contratavam jornalistas mas sim pessoas com  habilitação em comunicação institucional (adquirida já há anos em “ramos” de  licenciaturas e mestrados em comunicação social e ciências da comunicação), muitas das quais não têm emprego. Os jornalistas sabem, pois, muito bem a que se devem essas nomeações, às quais não será  também indiferente a remuneração auferida nos gabinetes ministeriais. A tudo isto acresce o fascínio, nunca confessado, exercido pela proximidade com o poder.

É igualmente espantoso que os analistas esperassem que as promessas eleitorais do actual primeiro ministro feitas no auge de uma disputa que nas últimas eleições representava quase uma questão “de vida ou de morte” para ele, fossem para cumprir, tanto mais que, como tem sido afirmado pelos novos governantes, não conheciam os dossiês os quais só agora começam a conhecer. 

Os estudos da comunicação política mostram que o discurso eleitoral não se limita a promessas de uma vida melhor para todos, traduzida em aumentos, férias, casas, etc.. Esse é o discurso mais comum. Passos Coelho percebeu que tinha de fazer a “diferença” do seu antecessor – o chamado “optimista” que “vivia na estratosfera”, como diziam os seus detractores.  O actual primeiro ministro privilegiou o discurso da ética política que se traduziria em novos métodos de escolha do pessoal político, na diminuição de ministérios, etc., a par do discurso da “verdade”,  materializado em  cortes na despesa em vez de aumento de impostos, etc., etc..

A desilusão que começa a ganhar forma no espaço público pode tornar-se duplamente penalizadora para o governo porque abrange as duas vertentes da “ilusão” prometida: a ilusão de uma ética que era  negada ao seu antecessor e a ilusão de opções económicas  mais justas.

Esta entrada foi publicada em Política, Sociedade. ligação permanente.

8 respostas a A dupla desilusão dos analistas

  1. Pingback: A “lista” do DN | VAI E VEM

  2. isa ferreira diz:

    “Não renunciarás à tua liberdade de expressão e de opinião”. Este direito, deve dar muito mais responsabilidade a quem escreve, por profissão. Gosto das questões levantadas pelo Alexandre Carvalho da Silveira e, para as consubstanciar, só ousaria acentuar o ênfase no tom e na forma. Eu, adjectivaria estes jornalistas, comentadores e outros que mais, de uma forma muito menos branda. O jornalismo deve, por direito e ética, ser isento! Se, depois de nos olharmos ao espelho, ainda tivermos coragem de criticar esta equipa governamental, por tudo e algo mais, estamos a precisar de um bom banho de “transparência”. Podemos mas, não devemos, esperar por uma manhã de nevoeiro e pelo iluminado que, do nada, encherá os cofres do Estado e afastará os graves problemas, herdados. Utópica e leviana esta forma de ser e estar. Foi o facto de gastarmos, durante demasiado tempo, o que não tinhamos, que nos conduziu por esta estrada carregada de enormes pedregulhos. Sempre ouvi dizer que, “quem não trabuca, não manduca”. A cumprir-se este velho provérbio, este país iria certamente entrar nos eixos e a economia produzida, seria distribuida por quem, realmente, a fez por merecer. Estou cansada de “Velhos do Restelo”!

  3. isa ferreira diz:

    Completamente de acordo com a exposição de Alexandre Carvalho da Silveira. Eu, acrescentaria mais alguns adjectivos para consubstanciar a “coisa” mas, não seria muito branda. Daí, optar por apioar as questões levantadas e fazer ênfase no seu tom e na forma como retrata alguns dos “jornalistas”, comentadores e outros mais. Sejamos honestos, Olhemo-nos ao espelho e conservemos a imagem que ele nos devolve. Se, depois de atenta e pormenorizada análise, tivermos coragem de criticar aqueles que ousaram tomar as rédeas deste navio sem comando, devemos olhar de novo o espelho e envergonharmo-nos pela ignorância com que nos revestimos. É aconselhável um bom banho de “transparência” que nos deixe prontos para olhar em frente e deixar os “Velhos do Restelo”, remetidos para a história. Isa

  4. André diz:

    O Alexandre devia tomar rennie.

  5. Anónimo diz:

    Só espero que desta vez a sabedoria popular não não tenha razão quando diz . « ATRÁS DE MIM VIRÁ , QUEM BOM DE MIM FARÁ …» para bem de todos nós , espero que tal não aconteça …mas tenho sérias dúvidas !!!

  6. Contumaz diz:

    Francamente, que perda de tempo.
    Temos um 1º ministro que foi indigente até aos 37 anos.
    Depois, não teve currículo que se apresente (além de ter sido testa de ferro do Ângelo Correia numas empresas), é ignorante e incompetente para o cargo que desempenha, para que é que interessa saber os currículos dos adjuntos, assessores e especialistas?
    Estão bem uns para os outros…e é tudo.

  7. Alexandre Carvalho da Silveira diz:

    Eu confesso que não li nenhum dos artigos que citou. Nem tenciono ler. Mas levando em linha de conta o que eles andaram a escrever nos ultimos anos, não me merecem nenhuma credibilidade. Todos eles foram, uns mais, outros menos, ferverosos apoiantes de Socrates e do socretismo. Miguel de Sousa Tavares chegou mesmo a dizer na SIC, e por mais de uma vez, que o Socrates era o melhor 1º ministro que portugal já teve. O Marcelino promovido do futebol para a politica, é empregado do “amigo Joaquim” e está tudo dito. A Sra São José Almeida, é uma devota assumida de José Socrates, e o Fernando Madrinha, passou anos a justificar muitas vezes o injustificavel nas suas colunas de sabado no Expresso, no que ao governo socialista diz respeito.
    Para termos uma noção do ponto aonde isto chegou, o DN faz hoje parangonas de 1ª pagina com a nomeação de 27 pessoas, BOYS como eles dizem, para as estruturas do estado. E o Publico, candidamente pergunta em editorial referindo-se à RTP, “o que é que o país ganha com a privatização de um canal do estado”? Para além de um milhão de euros por dia, pouco mais ganharia, mas tambem não perdia nada, digo eu.
    Os jornalistas antes de afiarem a faca para dissecarem as contradições dos politicos de que eles não gostam, deviam antes disso, reler o que escreveram nos ultimos anos. Por uma questão de coerencia.
    Os politicos portugueses são de fraca qualidade? Talvez sim. Mas os jornalistas, editores, comentadores, politologos, e tudologos, salvo raras excepções não prestam mesmo para nada.

  8. Luís Filipe diz:

    Gostei do seu texto, que de uma forma simples e desempoeirada levanta um conjunto de questões muito pertinentes quer sobre a prática política, quer sobre um universo mediático, que precisa de ganhar “transparência” e relevância, entre outras tantas coisas.
    Agradeço a partilha,
    Luís Filipe

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.