A “lista” do DN

A peça publicada hoje pelo Diário de Notícias sob o título “Saiba quem são os 73 boys já nomeados pelo Governo“, leva-me a retomar o tema abordado aqui. Trata-se de uma lista organizada segundo um critério de “ligações aos partidos”, tipologia criada pelo jornal para os distinguir de outros nomeados.

A lista não divulga qualquer outro elemento curricular dos nomeados,  por exemplo, habilitações académicas, experiência profissional, obras publicadas, etc., mas apenas funções políticas e partidárias anteriormente desempenhadas e respectiva ligação aos partidos da coligação.

Independentemente do partido a que pertençam os nomeados, o que é relevante nesta peça é a filosofia que lhe está subjacente, que discrimina as pessoas directa ou indirectamente ligadas a partidos políticos,  como se ser membro ou simpatizante de um partido fosse  algo de menos digno, uma espécie de ferrete que as impossibilitaria  de exercerem funções de governantes ou membros de gabinetes ministeriais.

Confundem-se aqui questões que não devem ser confundidas. Quem ganha eleições são os partidos, pelo que é normal que grande parte dos governantes emane deles (o que poderia causar perplexidade é que dois dos mais importantes ministros sejam “não políticos” sem qualquer experiência anterior de governação). A mesma questão se coloca relativamente aos cargos de confiança pessoal e política, geralmente secretariado e assessoria.  

Outra coisa são os cargos que exigem especialização – os denominados especialistas, consultores para funções essencialmente técnicas ou direcções e administrações de instituições públicas, cuja selecção  deveria depender de qualificação e experiência específica e demonstrada.

Ora, tal como surge, a lista do DN é susceptível de aprofundar ainda mais a aversão e rejeição que muitas pessoas nutrem pelos partidos políticos e por aqueles que desempenham cargos partidários, o que, em democracia, há-de considerar-se perverso. 

Mas o mais curioso é o facto de a peça do DN incluir uma referência aos jornalistas, “mais de uma dezena”, que se mudaram para assessorias do governo sem contudo os identificar, ao contrário do que faz para os oriundos ou próximos dos partidos.

Ora, a transparência não abrange apenas algumas “categorias” de nomeados nem se compadece com corporativismos de classe que se traduzam na omissão de outras “categorias”. De contrário, estaríamos perante uma forma de discriminação negativa de uns e positiva de outros.

Não é, aliás, crível que quem aceitou abandonar (ou suspender) uma carreira no jornalismo para abraçar um lugar de confiança política  pretenda “esconder-se” nas entrelinhas de uma qualquer lista, seja ela de “boys” ou de outra categoria qualquer.

A “lista” do DN carece, pois, de ser completada com a divulgação dos detalhes curriculares de todas as “categorias” de nomeados, incluindo os oriundos dos seus quadros.

Esta entrada foi publicada em Jornalismo, Política, Sociedade. ligação permanente.

4 respostas a A “lista” do DN

  1. Pingback: Passar para o “outro lado” | VAI E VEM

  2. Quase toda a (denominada por alguns blogues) “secção laranja” do DN saltou do jornal para as assessorias do Governo.

    Afinal, nada de novo. Em que época é que o jornal não esteve ao lado do Governo de serviço?

  3. Artur Gomes diz:

    Este «exercício» de procurar quem são os nomeados é mais uma cretinisse de uma certa categoria de indivíduos que acham ser «jornalistas». Incluem motoristas, empregadas de limpeza, secretárias, etc., como se alguém que vai para o governo (e estes não estão lá por minha culpa…) não tivesse que ter este apoio! Tem razão. O objectivo é vender jornais, o resultado é confundir as pessoas misturando funcionários públicos «normais» com assessores e consultores políticos. Em que país do mundo não há nomeações? Só se for no País das Maravilhas…
    A nomeação do staff é obrigatória por lei, tal como é a nomeação ou renomeação dos directores-gerais e subdirectores-gerais. É burocracia, será, mas é de lei…
    Mas, o objectivo é outro: demonstrar que «só» uma pequena percentagem de assessores é membro do PSD e do CDS… Pois, pois…

  4. Anónimo diz:

    O DN não se refere aos jornalistas que transitaram para assessores de membros do governo porque forneceu um boa quantidade deles.
    E se nos lembrarmos do que escreviam antes de 5 de Junho está tudo explicado-

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