Diz que é uma espécie de “especialista”…

Sou a favor da avaliação dos professores. Avaliação exigente com avaliadores internos e externos. Avaliação extensível a todos os graus de ensino e a todos quantos exerçam funções docentes, de carreira ou, no caso do ensino superior politécnico, de “especialistas“, título obtido em provas públicas que atestem “a qualidade e a especial relevância do currículo profissional numa determinada área para o exercício de funções docentes no ensino superior politécnico”.

Não deixa de causar alguma perplexidade verificar como em debates na televisão, na rádio e em colunas de opinião na imprensa, surgem a toda a hora pessoas identificadas na legenda como “professores universitários”, muitas das quais conhecidas de actividades profissionais que nada têm de “universitárias” ou “académicas”.

Trata-se, quase sempre, de profissionais convidados para “darem aulas” em universidades privadas não sujeitas à lei que criou a categoria de “especialistas” (ver link acima), que os contratam essencialmente com base na sua notoriedade pública,  visibilidade mediática, “peso” político ou de outra natureza. Na maior parte dos casos funcionam como “isca” para atracção de alunos.

Não está em causa a qualidade de muitas dessas pessoas nas respectivas profissões mas sim o facto de em muitos casos não possuírem qualidades pedagógicas (pensamento estruturado, metodologias de ensino, etc.) necessárias a quem lecciona seja em que qualidade e em que grau de ensino for. É que “saber fazer” nem sempre é sinónimo de saber transmitir “o fazer”.

São “professores” que nunca prestam “provas” quer perante os seus pares quer perante outras entidades, ao contrário do que acontece no ensino politécnico público, onde os “especialistas” estão sujeitos a quotas e a provas públicas de grande exigência e transparência.

Vem isto a propósito do caso de uma jovem licenciada a frequentar um mestrado numa universidade privada que me contactou por sugestão de um dos  seus professores sem grau  académico (uma espécie de “especialista”), para saber se eu aceitaria ser co-orientadora da sua tese de mestrado, uma vez que no mestrado que frequenta não havia nenhum docente com grau adequado para a orientar na área em que ela pretende fazer a tese. Combinámos uma reunião para eu me inteirar do tema escolhido, da sua formação inicial, etc..

Além de a aluna não ter qualquer ideia sobre como organizar um projecto de tese, quando eu quis conhecer o programa e a bibliografia da disciplina “principal” em que a tese se ancora, bem como uma ideia geral da investigação que pretende realizar, a aluna deu-me uma resposta esclarecedora do que acima refiro: a matéria dada na disciplina consiste essencialmente na discussão de artigos de jornais e a bibliografia são “os livros do professor”. 

O mestrado que frequenta é em “ciência política”, a tese que pretende realizar enquadra-se na área da “comunicação política” e a licenciatura é de uma área completamente distinta.  Os “livros do professor”  são memórias, reportagens jornalísticas e temas afins. Fácil é constatar que a aluna não possui  bases conceptuais sobre a matéria em que pretende realizar a tese de mestrado.

Acrescente-se que esta experiência não é, infelizmente, única e que os chamados “mestrados de Bolonha”, não obstante as vantagens que introduziram em muitos aspectos, nomeadamente pela diversidade e interdisciplinaridade que permitem, a par da possibilidade de realização de “teses de projecto” viradas para o “mercado”, vieram também dar origem a fornadas de mestres cuja preparação intelectual e académica é em muitos casos  inferior às licenciaturas “pré-Bolonha”.

Este caso surge a propósito das actuais discussões sobre avaliação de professores e de professores que previsivelmente ficarão no desemprego. Ocorre perguntar: que tal exigir um pouco mais a todos os que dão aulas, sejam professores de carreira em qualquer grau de ensino ou “especialistas” não sujeitos a provas públicas leccionando em instituições privadas? 

É que a mais-valia introduzida no sistema de ensino superior por profissionais no activo  com experiência comprovada não se compadece com o  sem número de  “professores” e de auto-intitulados “universitários” e “especialistas” que abundam no mercado.

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5 respostas a Diz que é uma espécie de “especialista”…

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  4. R diz:

    Concordo!
    Sou a favor também da avaliação de professores!

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