Títulos e outras coisas

Tem razão a Ana Matos Pires, do Jugular, quanto ao que escreve sobre a crónica de Mário Crespo no último Expresso dedicada à discussão entre Teresa Caeiro e Alfredo Barroso no “jornal das 9” da SIC Notícias.

Nessa crónica  Mário Crespo mostra não ter percebido que não foi por causa de Teresa Caeiro ter tratado Alfredo Barroso por “senhor Alfredo” que a discussão descambou, mas sim porque Teresa Caeiro utilizou essa forma de nomear o seu “parceiro” de debate, inusitada em debates anteriores entre ambos, pensando que  dessa forma poderia diminuí-lo. Seria coisa sem importância se a deputada do CDS não tivesse a seguir e durante o resto do debate enveredado por um conjunto de expressões ofensivas, acusando Barroso de ter  “um discurso básico” e de”arrastar a discussão para o lamaçal em que o senhor gosta de se mover”.

Como é óbvio para quem seguiu o debate em directo Alfredo Barroso, quase sempre contundente nas suas análises políticas, sendo essa uma das características que certamente levaram Crespo a convidá-lo para comentador da rubrica em questão, irritou Teresa Caeiro quando decidiu aproveitar o “seu minuto” inicial para citar um artigo do Expresso altamente crítico para o actual governo, incluindo frases de Paulo Portas proferidas quando este ainda  na oposição criticou o aumento de impostos do governo Sócrates e a ausência de cortes na despesa.

Teresa Caeiro reagiu às contundentes críticas políticas de Alfredo Barroso com ataques pessoais, do género “o senhor não se enxerga”, não tem nível, etc., inesperados num programa em que a “esquerda” e a “direita” se confrontam com maior ou menor dureza e contundência, porém, sempre sem ofensas pessoais. Aliás, quando Teresa Caeiro utilizou a expressão “senhor Alfredo” este devolveu-lhe o tratamento por “senhora Teresa”, não tendo sido isso a  azedar a discussão.

A crónica de Mário Crespo, no Expresso, é pois completamente desfocada e também o é o exemplo que chama à colação – o do ministro Álvaro Santos Pereira que afirmou gostar de  ser chamado por “Álvaro”. Crespo aponta o “gesto”  do ministro como “moderno e desempoeirado”, em oposição ao “bafio dos trajes académicos”, a que chama “ritual diferenciador”.

Ora, tão snob (diria, petulante) é aquele que pretende ostentar um título e o “atira” à cara do seu interlocutor  para através dele afirmar a sua superioridade (o que não foi o caso com Alfredo Barroso) como aquele que exibe uma pseudo-modéstia dizendo que prefere que esqueçam o seu título e o tratem…pelo nome. Essa é também uma maneira de dizer “eu tenho um título…”.

Mas o que mais chamou  a  atenção  no debate entre Teresa Caeiro e Alfredo Barroso foi a insistência do moderador  para que os dois comentadores dissessem se ficavam zangados, como se as relações pessoais entre ambos fossem tema de interesse para os telespectadores. Foi um momento verdadeiramente silly.  E foi aí que Teresa Caeiro esteve bem, dizendo a Crespo que “gostaria de continuar a responder [à questão que estava em discussão] porque aquilo não era “um confessionário”. E foi também aí que se percebeu que o moderador pensou que o tratamento de Teresa a Alfredo por “senhor Alfredo” foi a questão mais importante da discussão entre ambos.

Declaração de interesses: trabalhei 10 anos com Alfredo Barroso, quando ele desempenhou as funções de chefe da Casa Civil do Presidente Mário Soares. Quase todos os assessores o tratavam simplesmente por Alfredo.

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12 respostas a Títulos e outras coisas

  1. Ventura diz:

    Este ISCTE é o maior produtor de merda ideológica deste país. Pior só mesmo o Boaventura e sus muchachos. Esta senhora é mais uma saída daquele antro de estupidez e ignorância.

  2. Pedro Ulrich diz:

    Compreendo, teremos, assim sendo, visões diferentes da mesma realidade. Do meu ponto de vista, da mesma forma que um ministro não pode fazer comentários a título pessoal, não me parece legítimo que um membro de uma entidade reguladora para a comunicação social se sinta na total liberdade de expressar publicamente opiniões meramente pessoais, nas quais constatamos sempre uma visão “orientada” por posicionamentos ideológicos e não isentos. Parece-me que, no limite, quem perde é o próprio autor. Eu sou da área e digo, com toda a naturalidade, que essa não é a minha visão de exercício de liberdade de opinião com responsabilidade. Mas isso sou eu…

  3. Caro Pedro Ulrich, não pretendo desfocar nada. O que escrevo aqui é da minha inteira responsabilidade e não se confunde com as minhas funções na ERC. Sempre escrevi e trabalhei nos e sobre os média e a comunicação política é a minha área de trabalho e de investigação. Tenho textos publicados e nunca escondi as minhas opções ideológicas. Fui eleita pela Assembleia da República para o cargo que ocupo (espero que por pouco tempo mais, porque tenho projectos em mãos) numa lista única PS/PSD em que os 4 nomes eleitos foram indicados por estes dois partidos. Eu fui indicada pelo PS. O meu CV e os dos meus colegas foram discutidos na Comissão Parlamentar de Ética em audição. Quer coisa mais transparente? Quanto aos meus posts neste blog, é óbvio que o que eu escrevo, como o que você escreve, é influenciado pelas opções ideológicas, culturais, etc. de cada um. Não vejo mal nisso, o contrário seria hipocrisia. De qualquer modo aprecio que tenha comentado o meu post.

  4. Pedro Ulrich diz:

    Compreendo que tente descentrar o foco da “crítica”. Eu nem gosto do Mário Crespo muito embora o conheça há vários anos. Por mim, pode criticá-lo à vontade. Aliás, neste ponto em concreto até concordo consigo.
    A questão para mim é a seguinte: primeiro, por norma escolhe criticar quem criticou Sócrates e o Governo PS, o que já de si é revelador. Em segundo lugar, pese embora o seu direito à liberdade de opinião, não se pode abstrair do facto da importância e significado das suas palavras uma vez que está “à frente” de uma entidade reguladora para os media. Parece-me óbvio. E o facto é que o seu posicionamente ideológica muitas vezes “condiciona” (para ser simpático) o juizo que faz e revela nos seus textos. Este mesmo é sintomático disso mesmo. Ora veja lá se referiu um único dos dislates do Alfredo Barroso. Ser sério é mostrar os dois lados…

  5. Alberto Barros, não sei de onde me conhece ou se me conhece para afirmar que vi sempre de “sinecuras”. Deve estar a confundir-me com alguém. Faço-lhe essa justiça para não dizer que está a falar do que não sabe.

  6. Samuel B diz:

    Deixem-me apenas deixar aqui um pequeno contributo da genialidade do Sr. Mário Crespo:

    1 – “…o tio é tio?”
    2 – “…é ou não é tio?
    3 – “…por favor Sr. Ministro não brinque com as palavras”

    Desde que o Sr. Mário Crespo se dignou a fazer uma entrevista com este bocejo de palavras, que passei a vê-lo com outros olhos.
    Desde que o Sr. Mário Crespo se dignou a utilizar uma crónica para fazer queixinhas, que passei a encara-lo como uma criança.

    O debate em questão, da maneira em que se desenvolveu, levar-nos-ia a desejar que o moderador de “serviço” fosse alguém que tivesse outra postura e/ou outra envergadura. Mas não. O que tivemos foi uma pessoa preocupada em saber como é que os convidados se iriam comportar a partir daquela situação. Ou seja, se iriam dar um beijinho ou não sempre que se viam.

    Como é triste ver esta profissão, com tantos jovens jornalistas desempregados, recheada de pessoas mimadas e estranhamente convencidas consigo mesma.

    Obrigado.

    PS: Solicito encarecidamente que a comunicação social se decida, de uma vez por todas, qual das taxas é que vai apresentar como Título? Se a taxa em cadeia ou a homologa. Isto porque, estranhamente, utilizam ou uma ou outra consoante for a “má noticia”.
    Isto a propósito das notícias sobre o crescimento do PIB que apesar de ser -0,9% homólogos, é 0% em cadeia, o que significa que, e para tristeza dos nossos prestadores de “má noticias”, Portugal já não se encontra em recessão, precisamente porque a taxa de crescimento que interessa para o cálculo desta é a taxa de crescimento em cadeia.
    Espero que este principio se aplique a outras taxas, que também são tratadas conforme a tristeza maior ou menor dos afetados, como são as taxas de inflação e desemprego.

  7. Caros Alberto Matos e Pedro Ulrich. Conheço Mário Crespo há muitos anos e não creio que ele pense, como parece ser o vosso caso, que é intocável e que os seus programas não possam ser objecto de apreciações.

  8. alberto barros diz:

    Estrela Serrano é o que é. Uma mulher que viveu desde sempre de sinecuras. Mário Crespo é um homem com opiniões fortes e que sobrevive às Estrelas Serrano e ao esquerdismo mais sectario, radical e oportunista. Não o tente matar. Não parece que consiga

  9. Vejo que tem uma visão muito particular sobre o meu direito a ter opinião. E até ameaça! Assim nascem as ditaduras.

  10. Gonçalo Moreno diz:

    o senhor crespo é que não percebeu mesmo nada…

    GM

  11. aires diz:

    Alfredo é um must…
    resto, neste caso, Caeiro e Crespo, são paisagens meras…
    abraço

  12. Pedro Ulrich diz:

    Tenhamos decoro. Não acha que já está a atingir um ponto de absurdo a forma como vê as coisas tão enviezadas? Como é possível fazer uma análise como a que fez deste debate? Então e o princípio basilar em jornalismo de mostrar todos os lados relevantes da história? O debate foi de um constrangimento absoluto, mas estiveram ambos bons um para o outro. Tenha atenção, até pelas funções que (ainda) ocupa, à isenção nas análises. Por essas e por outras é que a ERC tem a imagem pública que tem.

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