Retratos de um Verão nostálgico

Em férias gosto dos fins de tarde na piscina quando o sol já desce no horizonte e os que fazem daquele o lugar de pouso o dia inteiro saem para preparar a noite num qualquer bar onde exibem os rostos e os corpos vermelhos de quem não tem sol durante o ano e pensa poder compensar a falta dele com alguns dias de exposição permanente. São na maioria alemães mas há também holandeses, espanhóis e alguns portugueses. Os nórdicos compram nos seus países “pacotes” de férias por “tuta e meia”, ao contrário dos portugueses que mesmo com preços de saldos pagam muito mais que eles. Em tempos idos conheci gente “bem” que ia a Espanha ou a Londres comprar férias em Portugal em hotéis com reservas cativadas pelas agências a preços convidativos.

Baseando-me na observação empírica fico com a ideia de que os turistas que nos visitam não têm um estatuto económico “por aí além”, embora se notem variações consoante a nacionalidade. Encontro-os no hotel e nos restaurantes: os espanhóis viajam mais em família, geralmente são casais jovens com filhos pequenos.  Aparentam ser “classe média alta” e vestem-se de acordo com os nossos padrões de gosto. Os nórdicos – alemães, holandeses, e outros – viajam em grupo, são quase todos de meia idade, vestem-se um pouco fora de moda para os nossos padrões, elas são gorduchas (tipo senhora Merkel) eles um pouco menos. Na piscina lêem livros de bolso e jornais alemães ou ingleses enquanto os espanhóis preferem revistas.

Há também portugueses. Casais aparentando mais de 40 anos, elas um pouco snobs, tipo Loja das Meias, eles mais polo Ralph Lauren e sapatos vela. Há também aquela senhora idosa de cadeira de rodas que cada ano tem uma nova “dama de companhia”, sempre uma jovem africana, que a leva à piscina e ao buffet e, a julgar pela aparência, ao cabeleireiro e à modista. Tem lugar cativo no restaurante do hotel e os empregados tratam-na com grande ternura.

Não sei se alguém daqueles com quem me cruzo se dará ao trabalho de exercício semelhante em relação à minha pessoa. Espero bem que não porque talvez eu não  me reconhecesse no “retrato”. 

Talvez os nódicos, sobretudo os alemães  que nos visitam pela primeira vez nesta fase de  crise plena, certamente conhecedores do que por lá se diz sobre os portugueses, pensem o que eu pensei quando pouco depois da queda do muro de Berlim visitei a “Alemanha de Leste” e me hospedei num hotel simpático e confortável e onde não faltavam algumas mordomias: afinal, a Alemanha de Leste não era o que se dizia.

Talvez os alemães pensem também que, visto de perto, Portugal não é o que por lá se diz… 

E, no entanto, talvez este seja o último Agosto da  contemporaneidade em que uma família portuguesa, pequena e de recursos médios, pode dar-se ao “luxo” de uma semaninha de férias num hotel ….

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