Sobre a RTP são muitos os que falam e poucos os que acertam

O alegado convite a Mário Crespo para correspondente da RTP em Washington agitou as redes sociais e as edições online dos jornais. Passadas quase  24 horas sobre a notícia o desmentido do próprio jornalista  e o comunicado da Direcção de Informação da RTP, bem como as declarações do presidente do Conselho de Opinião da RTP, não chegam para esclarecer o que se terá passado, tanto mais que quer o ministro citado como “convidante” quer o Expresso, que deu a notícia em primeira mão, não se pronunciaram após os desmentidos . 

De entre os comentários entretanto surgidos, esta análise de João Miranda, no Blasfémias, suscita-me também um comentário,  porque essa análise é uma contradição nos termos.

De facto, ao contrário do que João Miranda afirma, a prova de que os governos não intervêm na RTP quando e como querem  está à vista neste caso: a notícia (verdadeira ou não) foi imediatamente conhecida, o governo não a desmentiu até ao momento, o “convidado” proferiu uma primeira declaração ambígua que mais confirmava a abordagem do que a desmentia e a Direcção de Informação da RTP (DI/RTP) veio “pôr os pontos nos is” e  afirmar “que respeita as regras”, que é como quem diz “aqui quem manda sou eu”.

A menos que o DI/RTP e a administração venham a ser “despedidos” por terem ousado lembrar a quem de direito que a competência para a nomeação de correspondentes lhes pertence, o que temos aqui, ao contrário do que diz o post do Blasfémias, é uma  tentativa de interferência não consumada (cuja responsabilidade não pode ser assacada à  RTP). Como dizia o outro, “chapéus há muitos”.

Também o que o Blasfémias chama de “tentativa de Sócrates de comprar a TVI através da Portugal Telecom”, a ter existido, só prova que,  ao contrário do que é afirmado, o então primeiro ministro não dominava a RTP, quando não para que quereria “comprar a TVI”?.

Cai igualmente por terra o argumento do Blasfémias de que a única solução possível é  (…)  uma pressão para que o Estado privatize a RTP e deixe de financiar a comunicação social (…).” Cabe aqui perguntar se o exemplo do alegado convite a Mário Crespo não representa porventura antes uma forma de influenciar uma televisão privada  – a SIC – que não se sabe se foi consultada antes da formulação do “convite”. Cabe igualmente perguntar se em alguma outra televisão privada as nomeações internas são objecto do escrutínio público a que estão sujeitas as da RTP e se é costume os directores criticarem as suas administrações como acontece na RTP e referi aqui

Numa altura em que se repensa o serviço público é bom não esquecer os factos. É que sobre a RTP são muitos os que falam mas poucos os que acertam.

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3 respostas a Sobre a RTP são muitos os que falam e poucos os que acertam

  1. Luís Filipe diz:

    Bem, resta-me esperar que o tal João continue a escrever no Blasfémias.

  2. Argumento? de João Miranda no Blasfémias? Ena, uma estreia, vou ler!

  3. Carissima Estrela Serrano,
    … é um gosto lê-la! Obrigado.
    Um abraço.

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