Sobre a política de comunicação do Governo

Na sua crónica desta sexta-feira no Público (link indisponível),  intitulada “Este idílio não dura”, Vasco Pulido Valente (VPV) critica o Governo por não ter uma “política de comunicação”. Dessa crónica destaco:

 “(…) Pedro Passos Coelho não tem uma “política de comunicação” com princípio, meio e fim, com o resultado de que a acção do Governo aparece como uma sucessão de “medidas” ad hoc, sem propósito ou lógica visível ou, pior ainda, o simples cumprimento do “programa” da troika, como entendido por cada ministro, segundo as suas luzes. (…) Com a falta de um centro orientador, os ministros não se atrevem – e bem – a explicar à populaça o que querem e para onde vão. (…). Há surpresas dia sim dia não e nenhum sentimento de que se vai por um caminho meditado e seguro.(…)”.

A conclusão  de VPV parece lógica. Porém, uma política de comunicação nem sempre surge como algo imediatamente perceptível, o que não significa que não exista.  No caso do Governo actual, a visibilidade “consentida” aos seus dois ministros “independentes” -Vitor Gaspar e Álvaro Santos Pereira – revela uma estratégia de comunicação pensada para produzir determinados efeitos. É certo que nem sempre uma estratégia de comunicação atinge os fins pretendidos, porém, neste caso, alguns resultados são visíveis, uns bons, outros menos conseguidos. Vejamos:

-Após as peripécias com o “caso Bairrão”, as declarações no Conselho Nacional do PSD sobre  o “desvio colossal”, acontecimentos em que o primeiro ministro assumiu visibilidade e  protagonismo, a comunicação do Governo tem-se centrado essencialmente nos dois ministros acima citados. De facto, as medidas mais impopulares e dolorosas têm sido anunciadas pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, “poupando” o primeiro ministro e fazendo recair sobre o ministro todas as atençõesPor outro lado, o estilo tecnocrático e aparentemente pouco político do ministro, a sua obsessão com a pontualidade, o modo como fala, os seus gestos (no caso do “desvio colossal”), até o seu corte de cabelo (a motivar um reparo elogioso de Maria Filomena Mónica), foram matéria de comentários, a princípio provocando surpresa e agrado, a pouco e pouco, nas últimas aparições, desilusão e  desagrado (sobretudo na última declaração em que recusou responder a perguntas dos jornalistas).

– Paralelamente, o facto de se tratar de um ministro não oriundo de qualquer dos partidos da coligação, ser um desconhecido e “próximo” da troika, trouxe-lhe uma aura de competência e rigor quase indiscutíveis, pelo que é fácil presumir que aos olhos de muita gente  as medidas que anuncia surgem como as únicas ou as mais adequadas à resolução dos problemas do país. Vítor Gaspar deu duas conferências de imprensa e falou aos deputados da Comissão Parlamentar, sempre com as televisões em directo, deu uma entrevista à TVI  e durante esse tempo todos os elogios e críticas esqueceram ou secundarizaram o chefe do Governo.

Foi preciso surgir a “festa do Pontal”, que marcou  o “ressurgimento” do primeiro ministro, para que as análises (muitas delas críticas) se voltassem para o chefe do Governo, incluindo a de VPV a que aqui me refiro, prova de que a estratégia anterior não foi errada.

– O “segundo” ministro mais em foco,  Álvaro Santos Pereira, um académico vindo do Canadá para um super-ministério, tem polarizado atenções em torno da sua pessoa, primeiro despertando a  simpatia dos média mercê do fait-divers “chamam-me Álvaro” e de algumas declarações espectaculares que proferiu (como a de estudar os dossiês enquanto viaja de Metro), porém  parece ter entrado em fase decrescente de simpatia, sobretudo a partir da audição na Comissão Parlamentar (onde justificou  com alguma displicência o vencimento da sua chefe de gabinete) e da deslocação a Madrid a propósito do TGV, onde proferiu declarações ambíguas que provocaram críticas públicas de um dos deputados da maioria.

– Diria, pois, que ao contrário do que escreve VPV, o Governo tem uma política de comunicação que,  nesta primeira fase, investiu essencialmente em dois ministros “diferentes” – académicos, estrangeirados, tecnocratas, não “contaminados” pelo “vírus” partidário –  apresentados e vistos  como pessoas confiáveis e sem outros interesses que não os do País. Foram eles que anunciaram  o que vai ser e o que deve ser feito.  Ao pé deles, Paulo Mendo pouco (e mal) se ouviu.

Entretanto, o chefe do Governo “falou” aos portugueses no Facebook e os ministros políticos do “núcleo duro” mantiveram-se na sombra, aqui e ali assomando com alguma picardia mais política, porém, deixando o palco mediático aos seus colegas independentes.

Mas eis que o “caso Mário Crespo” irrompe no Expresso, aparentemente fruto de uma “fuga” fora de controle, puxando da pior maneira para a ribalta (donde na verdade nunca saíu mercê da polémica sobre a privatização da RTP) o ministro mais poderoso (a crer nos jornais) deste governo, Miguel Relvas.

Foi talvez o “sinal” de que a primeira fase da “política de comunicação” se cumpriu, que os ministros “independentes” esgotaram os seus recursos mediáticos e que é preciso preparar a estratégia para a fase seguinte, porventura mais difícil e complicada. 

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Uma resposta a Sobre a política de comunicação do Governo

  1. Anónimo diz:

    Este governo cava a sepultura do país.

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