As notícias sobre a demissão do patrão das secretas eram manifestamente exageradas

Afirmação tão peremptória  como a do anúncio de que o primeiro ministro iria demitir o “patrão das secretas” só podia estar bem sustentada. Contudo, lendo o texto em que a mesma se apoia o mais que se encontra é que o “demitido” “tem o destino traçado: ou se demite ou é demitido”. O leitor mais céptico dirá para si: “há-de ser um dia, não se sabe é quando”.

Apesar da falta de sustentação do título, a verdade é que as notícias da manhã, da tarde e da noite diziam todas que, “afinal” o “patrão das secretas” não foi demitido. Alguns falavam mesmo de “recuo” e, à noite, na SIC Notícias, Ângelo Correia mostrava-se desiludido, porque, como afirmou, se o homem já pediu a demissão desde o “caso Bairrão” porque é que o primeiro ministro não aproveitou agora para a aceitar?

Boa questão, diria: possivelmente só será demitido quando ele próprio decidir demitir-se. É geralmente assim quando se sabe demais. E, pela ordem natural das coisas, poucos saberão mais do que o “patrão das secretas”.

As perguntas do momento são, porém, as seguintes:

1. O que levou o chefe dos espiões que foi para a Ongoing a mandar devassar as chamadas do jornalista Nuno Simas? A lógica das coisas aponta para as seguintes hipóteses:

o chefe dos espiões queria saber quem deu ao jornalista as informações sobre o SIEDS  para o punir;

o chefe dos espiões queria “apanhar” o jornalista em conversas ou contactos “comprometedores” para o chantagear e levá-lo a divulgar a fonte e/ou a não publicar as notícias sobre a sua pessoa e os seus serviços;

2. Porque é que a notícia só saíu agora? As hipóteses também são várias:

o “executor” da ordem do chefe dos espiões para espiar os telefonemas do jornalista não foi “recompensado” pelo serviço prestado e vingou-se do chefe, fazendo chegar a informação ao Expresso;

o “colaborador” da Óptimus que cedeu a  lista dos telefonemas do jornalista  não recebeu a devida “recompensa” pelo serviço prestado e arranjou maneira de dar a lista ao Expresso;

o”colaborador” da Óptimus zangou-se com o chefe dele e resolveu pôr de rastos o nome da empresa, colocando a notícia no Expresso;

O “colaborador” da Óptimus é um agente infiltrado que não foi devidamente recompensado pelo seu chefe  (o das secretas)  e vingou-se dele, fazendo chegar a lista ao Expresso;

– Os colaboradores do chefe dos espiões foram leais ao chefe e foi um “inimigo” interno do chefe das secretas que ainda se encontra no SIEDS que, conhecendo a trama, para se vingar do antigo chefe colocou todas as notícias no Expresso. (Para alguns é esta a hipótese mais plausível).

Já sabíamos que as escutas que os juízes mandam fazer a suspeitos da política e dos negócios podem chegar aos jornais e servir a estes para vários fins. 

Nestes casos das secretas relatados pelo Expresso, começando com Bairrão e culminando em Nuno Simas,  há em todos eles um misto de crime e  corrupção, tenha esta a “cor” que tiver:  “preta”  “cinzenta” ou “branca” (para usar a linguagem dos especialistas).

Sejam quais forem os seus detalhes, são estórias de perseguição, vingança, traição, em benefício pessoal. Quem as conhecerá ao pormenor? Talvez o patrão das secretas que, como diziam as notícias, foi hoje recebido pelo primeiro ministro mas, “afinal, hoje não foi demitido.”

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