Será só “má” comunicação?

“(…) o Governo está a precisar de sociólogos e historiadores, ou se quiser apenas de gente com algum saber do país e da vida, que não tenha vindo nem das jotas, nem do marketing, nem dos gabinetes tecnocráticos. Pode ser um padre da província, um bom sociólogo prático, ou um médico que ainda trata cirroses, ou um bom funcionário das finanças, ou um juiz de idade, ou um velho polícia, que já viu muito do que é o seu país e que lhes explique que o Estado em Portugal não é apenas o que vem nos livros de economia, nem da vulgata que hoje passa por liberal (…). (Pacheco Pereira, Público, 3/Set/2011)

Estas palavras de Pacheco Pereira traduzem bem uma situação que encontra representação mediática no que eu chamaria de clivagem discursiva  entre ministros “políticos” e “não políticos”, entendendo por estes últimos os de perfil técnico ou académico, habitualmente chamados  “tecnocratas”.  

Não me recordo de clivagem tão marcada em governos anteriores onde também existiam ministros “tecnocráticos”, porém sem o protagonismo que Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira, e, num plano inferior, Paulo Macedo, adquiriram desde a tomada de posse do governo.

A diferença com anteriores governos está porém  mais nos primeiros ministros do que nos ministros. O actual primeiro ministro “delegou” nestes seus ministros o protagonismo do anúncio das  “más” medidas, “eclipsando-se” nesses momentos, ou sobrepondo-lhes eventos comunicacionais “positivos”, como aconteceu na semana passada com  o périplo europeu.

Ora,  a crer nas notícias, as intervenções públicas desses ministros, sobretudo as sucessivas presenças do ministro das Finanças no Parlamento e na televisão,  estão a provocar incómodo aos deputados da coligação,  havendo quem aponte  “a comunicação do executivo como um problema”. Este sábado pelo menos o Expresso, o Público e o DN, reportavam  comentários de membros dos partidos do governo que nas reuniões dos respectivos grupos parlamentares se terão queixado da má comunicação das medidas anunciadas pelo ministro das Finanças, para além de figuras destacadas  como Marques Mendes, Ferreira Leite e Graça Moura, do lado do PSD, e  Lobo Xavier e Pires de Lima (do CDS/PP), cujas críticas vão directamente à substância da política económica do governo.

Pensarão talvez os críticos afectos ao governo que uma “boa”  comunicação diminuiria o efeito provocado pela “má comunicação” de medidas “menos boas”. Talvez, mas  não se vislumbra que estragégia comunicacional seria capaz de resistir ao efeito devastador das medidas anunciadas.

A estratégia de conferir protagonismo aos ministros” tecnocratas” parece assentar na sua capacidade para transmitir credibilidade e rigor – a chamada linguagem da “verdade” –  dadas as suas credenciais académicas que sempre deslumbram alguns políticos menos “graduados”.

Ora,  hoje em dia as prestações dos membros do governo, em comissões parlamentares ou no Plenário, em entrevistas televisivas ou em conferências de imprensa, envolvem um “contraditório” directo e simultâneo, através de perguntas dos deputados, dos jornalistas e dos comentadores, isto é, envolvem um confronto político para o qual nem todos os ministros “tecnocratas”  estão preparados.

Exemplo dessa impreparação é a entrevista de Paulo Macedo à TVI que provocou, logo a seguir, a demissão dos responsáveis pelos transplantes. A maneira “brutal” como o ministro assumiu que alguns transplantes deixariam de ser feitos, não tendo sido capaz de prever as consequências de tal afirmação, revela a sua incompatibilidade quer com a dimensão comunicativa da governação quer com a dimensão política e social que se exige a um ministro. 

O ministro das Finanças é um caso diferente: possui uma imagem simpática e credível que começou por provocar surpresa e elogios mas se tornou repetitiva, sobretudo, o ministro criou a imagem de alguém que  tem um discurso para “dizer” mas não tem capacidade de resposta às questões colocadas pelos interlocutores sobre esse discurso. É uma espécie de  robot programado para um determinado objectivo do qual não é capaz de se afastar.

O oposto do discurso dos ministros “tecnocratas” é o discurso dos ministros “políticos”.  Estes são capazes de criar “ruído” comunicacional através de mensagens-choque como esta, posteriormente dada como sem fundamento ou esta. Ambas  tentam “controlar danos” provocadas pelas intervenções dos seus colegas “tecnocratas”. Em alguns casos, porém, a coisa resulta mal, revelando excesso de zelo de assessores desejosos de mostrar serviço, estratégia  que dificilmente é aceite por um ministro “tecnocrata” .

É claro que para o cidadão comum medidas “más” não deixam de o ser ainda que  anunciadas com “embalagem” atraente.

Pior ainda é quando uma notícia “má”  é escondida. Aí o resultado é duplamente penalizador: além da rejeição da própria medida, há a rejeição de quem é por ela responsável e de quem decidiu escondê-la. Parece ter sido o caso, a crer nas notícias, do  pedido de resgate da dívida da Região Autónoma da Madeira, cuja comunicação pública foi feita por Vítor Gaspar, um ministro “tecnocrata”. Porém, a  estratégia fez ricochete e as críticas voltam-se agora para quem  preferiu não  dar a cara por ela. 

Moral da estória: saber comunicar ajuda mas não resolve o problema de uma má medida.

 

 

 

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5 respostas a Será só “má” comunicação?

  1. Scorpius diz:

    Ainda que que não seja fã de Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira,ambos têm razão no que escreveram e disseram.O estilo de governo ou desgoverno em curso é exatamente o contrário por que ambos deram a cara durante a campanha eleitoral e daí a sua natural e compreensível reação.Onde está afinal a transparência tão apregoada?E as gorduras do Estado porque foram trocadas pelos ossos das portuguesas e portugueses?

  2. Gonçalo diz:

    O Pacheco não deixa de ser um camelo, mas não é por isso, quando, ao contrário, é o PS governo, que não deixa de ser ouvido e aplaudido (sempre que não morde no lado errado!) pelo PSD. Bendita coerência. Aliás, fosse ele menos refilão, e toda a gente do espectro cromático alaranjado se colaria à insofismável rectidão do intelectual.

    Quanto ao país, não há mais nada a fazer, diz? Um Governo que construiu a sua vitória naquelo que agora não conseguirá manifestamente cumprir? Um Governo que insistiu que já tinha tudo estudado e preparado para corat nas “gorduras do estado”? Um Governo que propiciou e acelerou a debacle financeira do país por razões eleitoralistas? Um Governo que tecia loas à entrada do FMI, que aspirava e almejava as Medina-Carreirices, que se propos ir mais longe, mais a fundo, que o que a Troika impunha…

    Coitadinhos. São Governo há 3 meses. Estou cheíinho de pena.

    Saberá o meu amigo que este Governo não chegará aos 4 anos. Infelizmente por um lado, felizmente por outro. Mas, alas, será demasiado tarde. Agora vão liquidar tudo a preço de saldo, entorpecer a economia, pagar contas e favores a quem não os merece. Mas, vá, estou certo que nessa altura haverá mais Ruis Pinhos a dizer que a culpa é do Sócrates.

  3. Rui Pinho diz:

    Claro que se deve fazer critica. Agora, daí até, de repente, toda a gente se dedicar a citar e enaltecer a critica do Pacheco Pereira…
    Escolham alguém sem “rabos de palha” e mais coerente.

  4. Anónimo diz:

    Não é bem assim, caro Rui Pinho. Avaliá-lo (nas urnas) daqui a 4 anos não implica uma postura acrítica entretanto, como há seguramente de concordar.

  5. Rui Pinho diz:

    O Pacheco Pereira, quando o PSD é governo, torna-se numa espécie de Dalai Lama dos blogues e dos jornais, tem sempre razão, nem que não a tenha. É um triste.
    Quanto à situação do País, segundo parece, não há mais nada a fazer a não ser seguir a cartilha da troika. A alternativa é a falência do Estado. Alguém o deseja? Não me parece. E a boa comunicação já existia no anterior governo (?) e viu-se o excelente resultado que deu.
    Trabalhem mais e critiquem menos. O Governo tem três meses, vai ser avaliado daqui a pouco menos de 4 anos. É assim em democracia, avaliem-no então.

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