A televisão pública não existe para “derrotar” as privadas

Há qualquer coisa de perverso no facto de um responsável da televisão pública enunciar como objectivo “derrotar” um canal privado. De facto, o que se espera da televisão pública é que se empenhe em fazer melhor que as suas congéneres privadas, no sentido de se constituir como alternativa de qualidade, fornecendo aos cidadãos informação que lhes permita tomarem, no dia a dia das suas vidas, decisões informadas.

Daí que não possam deixar de causar perplexidade as afirmações contidas na notícia seguinte:Nuno Santos ladeado pelo director adjunto Vítor Gonçalves e o subdirector Luís Castro

A direcção de Informação da estação pública quer derrotar a SIC Notícias até ao fim do próximo ano. Herman José e Rita Ferro vão ser comentadores domingos à noite. (…) O humorista Herman José e a escritora Rita Ferro vão encontrar-se aos domingos na nova RTP Informação para analisar a actualidade no programa Moeda de Troika. Ambos, e ainda um terceiro elemento que falta escolher, fazem parte de 20 opinion makers que vão integrar a grelha. Rui Rangel, Marinho e Pinto, Carvalho da Silva, Moita Flores e Paulo Rangel são alguns dos outros nomes já confirmados.” (Nuno Santos, director de informação da RTP, DN, 14/Set /2011)” 

Sem prejuízo das qualidades das pessoas escolhidas para “derrotar” a SIC Notícias (que nas respectivas áreas de especialização serão certamente muitas) não se vislumbra que contributo poderão dar um humorista e uma escritora para uma análise da “actualidade” num canal informativo como é a “nova RTP Informação”. É certo que o título do programa, “Moeda de Troika”, remete para um registo humorístico ou satírico da “actualidade” mas, ainda assim, não se percebe a “parceria” entre o humorista e a escritora.

Esta notícia traz à lembrança as declarações de outro jornalista, ex-director de informação de TVI, sobre os canais informativos do cabo e os espaços de comentário, quando disse, entre outras coisas muito acertadas,  que  “os partidos metem quem querem nas televisões”

Parece, pois, que os canais informativos do cabo não encontraram ainda critérios de selecção baseados no saber e na especialização para a escolha de analistas e comentadores, quer da área estritamente política quer de outras áreas, que os coloquem ao abrigo de escolhas incompreensíveis ou ditadas pelos naturais interesses dos partidos políticos.

A renovação de que tantos falam não se aplica apenas às lideranças políticas mas sobretudo aos “valores”que em cada área do saber e da experiência existem na sociedade portuguesa.

Os responsáveis dos órgãos de comunicação social possuem, a esse nível, uma responsabilidade a que não podem eximir-se. Também para evitar que se criem entre jornalistas e comentadores relações de demasiada proximidade que depressa se podem tornar de cumplicidade, com resultados que se adivinham.

Isto vale, em primeiro lugar, para a televisão pública.

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6 respostas a A televisão pública não existe para “derrotar” as privadas

  1. Filipe Mesquita diz:

    Deixo apenas no ar, uma simples pergunta: A RTP Informação faz parte do serviço público de televisão? Desde quando? É que se faz parte, não faz sentido estar disponível apenas através das Operadoras por cabo… Acho que com isto digo tudo, nas palavras que defendo, não querendo com isto levar a “minha razão” avante. 😉

  2. Filipe, esqueci-me de dizer que concordo consigo quanto à necessidade de “caras novas” mas aí há que procurar em universidades e noutros meios profissionais pessoas que estudam e trabalham nas diversas áreas que compõem a vida das sociedades e que ninguém conhece porque os média não lhes dão o palco que dão ás “vedetas” de sempre. Ora, cabe ao serviço público abrir esse caminho.

  3. Caro Filipe, a crítica não pretende ser destrutiva, pelo contrário, sou uma defensora do serviço público desde sempre. Por isso acho que o serviço público se deve distinguir pela qualidade dos seus profissionais e daqueles que são chamados a colaborar nela e aos quais são exigidas também “credenciais” que justifiquem a sua escolha. Eu sou admiradora do Herman e há muitos anos até participei num programa da Rita Ferro na RTP2.. A minha observação tem a ver com o facto de eu entender que cada um deles é bom na sua área – no humor (o Herman) e na escrita (a Rita Ferro). O que não entendo é o critério que leva a convidá-los para comentarem a actualidade político-económica (ao que julgo) numa vertente de humor (será?) Mas vou esperar para ver se estou errada. Talvez eu seja uma “purista” sobre o que á um canal informativo…

  4. Filipe Mesquita diz:

    Não consigo compreender esta crítica destrutiva… Compreendo perfeitamente as razões pelas quais a nova Direcção de Informação da RTP quer colher frutos com a nova RTP Informação: Se o canal generalista é líder na informação, porque não o canal temático também o ser? Faz sentido a ambição de ultrapassar-se a SIC Notícias, já que a antiga RTP N estava muito aquém das expectativas e, pelo que vejo, este novo canal tem tudo para ultrapassar as concorrentes. Em segundo lugar, em relação às críticas feitas às participações de humoristas e escritores num programa de informação, também não compreendo as palavras escritas pela Estrela. Acompanhei muitas das entrevistas realizadas na “Noite Informativa” da RTP N e é sempre bom ouvir-se várias personalidades da sociedade, das diversas áreas existentes. Não podemos estar sempre a escutar os mesmos, ou seja, políticos e comentadores de política, há-que ter uma vertente mais ampla e aberta para que se possam tirar conclusões mais sólidas, mesmo que seja através do humor e do sarcasmo.

  5. Caro Nuno, espero que consiga e que não dê motivos nem razão àqueles que usam o argumento de que a RTP é “igual às privadas” para acabarem com ela. Um abraço.

  6. Nuno Santos diz:

    Cara Estrela, sigo sempre os seus escritos com atenção e concordo muitas vezes consigo. Não é o caso. Os humoristas em causa vão acrescentar, estou certo, um outro olhar sobre a atualidade. Mais um. De resto em mais de 100 horas de produção própria por semana há opinion makers de vários sectores que vão ajudar a compreender o que se passa à nossa volta. Já agora nas várias declarações que prestei não relevei nunca a questão das audiências. Ela foi relevada pela imprensa e não me queixo. As coisas são o que são e é sempre mais tentador ter uma ” guerra” de audiências como pano de fundo. Quero que a RTP Informação seja em muitas ocasiões um canal igual aos outros, porque a matriz de um canal 24 horas, é incontornável mas quero que seja diferente. Mesmo num quadro difícil, que a Estrela conhece, acho que a Redação da RTP está mobilizada.
    Obrigado

    NS

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