VAI E VEM

A RTP transformada em bode expiatório

Uma das piores coisas que pode suceder a uma instituição, seja ela pública ou privada, é os seus responsáveis, directos ou indirectos, virem a público com declarações “incendiárias” cheias de subentendidos e reticências sobre o futuro da instituição e o destino dos seus trabalhadores.A RTP foi ontem, uma vez mais, vítima de  declarações desse tipo na entrevista do primeiro ministro à própria RTP, ao argumentar em defesa da privatização da empresa que, embora “sensível às condições do mercado”, a empresa “consome mais cerca de 100 milhões de euros de despesa que a Presidência do Conselho de Ministros, que tem a seu cargo os apoios à cultura e ao desporto.”

Com o devido respeito, ouvir o primeiro ministro usar o argumento financeiro de maneira tão primária, sem uma palavra de apreço ou consideração pelos milhares de trabalhadores e dirigentes que ao  longo dos anos têm defendido e honrado os valores do serviço público de televisão, é desanimador e injusto. E é-o tanto mais quanto estas declarações se seguem a outras repetidamente afirmadas pelo ministro com o pelouro da comunicação social sempre em tom negativo, como se a responsabilidade pela situação financeira da RTP não fosse dos sucessivos governos, sobretudo daquele que decidiu eliminar a taxa de televisão sem contrapartida equivalente.

Também as declarações do presidente da empresa sobre corte nos salários e “pressupostos políticos da reestruturação”, a propósito da entrega ao governo do plano de reestruturação da empresa, são pouco encorajadoras para quem diariamente dá o melhor de si para manter uma boa imagem da empresa e do serviço público que presta.

É por isso compreensível e mesmo  louvável nos tempos que correm, pelo que significa de “coragem”, ver os representantes dos trabalhadores virem a público defender o serviço público perante declarações bombásticas e explicarem aos responsáveis políticos coisas como a necessidade de conservação dos arquivos da RTP, verdadeiro património nacional, ou  “o único canal de notícias internacionais a transmitir em português no mundo”, contribuindo “para a influência portuguesa no mundo transmitindo notícias sobre Portugal em nove línguas”.

A RTP é, assim, voluntaria ou involuntariamente, erigida em  bode expiatório de estratégias políticas e comerciais de entidades públicas e privadas que se vão posicionando no terreno à espera do momento em que se chegarão à frente para lhe “comerem a carne e deixarem os ossos”.

Não é coisa bonita de ver nem de ouvir.

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