O “ressurgimento” do ministro Álvaro

A pressão exercida pelos média sobre o poder político é  inelutável mesmo quando, como é o caso do actual governo, se chega ao poder com um discurso contra a “profissionalização” da comunicação e contra o recurso a ferramentas de comunicação mais sofisticados como o teleponto (alvo de chacota e piadas de jornalistas e políticos quando José Sócrates o usava nos seus discursos).

Vem isto a propósito do “ressurgimento” no programa Prós & Contras desta segunda-feira, do ministro Álvaro Santos Pereira, após durante semanas muitos terem perguntado,  em  jornais e nas redes sociais,  “onde anda o ministro da Economia?“.

Pois o ministro que gosta de ser chamado por Álvaro cedeu à pressão e “apareceu” finalmente, a responder a questões em debate aberto sendo confrontado com opiniões e argumentos contrários aos seus, em alguns casos sólidos. Anunciou “novidades”, a mais mediática consistindo  num programa no valor de cerca de 100 milhões de euros com vista a dar trabalho a desempregados há mais de seis meses, além de outras como a possibilidade de aposta na energia nuclear ou um modelo sustentável para o mercado de eletricidade e ainda alterações ao TGV, (um TGV para mercadorias, como lhe chamou a SIC).

Mal seria que o ministro decidisse  expôr-se na televisão sem nada de novo para dizer. Acontece, porém, que durante o dia de hoje jornalistas e parceiros sociais colhidos de supresa pelas “novidades” reagiram às medidas e  quiseram saber pormenores.

Primeiro vieram as reacções: os patrões da CIP lamentaram que “o ministro tenha aproveitado um programa televisivo para anunciar um plano de apoio a desempregados que “ainda não apresentou em sede própria: a concertação social”. Classificam as medidas como “isoladas” e “desgarradas”.

Os sindicatos mostraram-se cépticos: CGTP diz que “o programa anunciado não resolve o problema estrutural do desemprego e a UGT fala numa medida avulsa e indefinida”

Do lado dos jornalistas, alguns pareciam  inconformados com a falta de pormenores das medidas anunciadas. A SIC Notícias acrescentava a cada anúncio das “novidades” do ministro a frase “também aqui, não há pormenores”. A Renascença pediu esclarecimentos adicionais ao Ministério da Economia sobre o apoio aos desempregados mas o Ministério remeteu  explicações para mais tarde.

Um pouco mais para o fim do dia foram surgindo algumas explicações a “conta-gotas”. E aconteceu até que a atenção sobre as “novidades” foi  desviada para a notícia de que ministro ia “jantar  com 12 empresários”. O gabinete de imprensa do Ministério confirmou a existência deste jantar mas escusou-se a avançar com qualquer informação, nomeadamente quem são os convidados, alegando que se trata de um “encontro privado”. 

O balanço do “ressurgimento” do ministro Álvaro foi  assim um acto de comunicação incompleto, uma espécie de “toca e foge”. Anunciou novidades em catadupa mas não deu pormenores remetendo-os para mais tarde. Mais tarde, os pormenores surgiram aos bochechos, logo “atropelados” por novos eventos sobre os quais também não podia “avançar qualquer informação”.

O ministro Álvaro é simpático, sabe sorrir, embora por vezes a despropósito, tem alguns problemas com a expressão verbal na coordenação entre sujeito e predicado, talvez fruto da sua ausência prolongada do país. Escreveu livros de economia cheios de belas teorias mas não pensou, talvez, que ser um “super-ministro” o obrigaria a enfrentar os média e a ser perguntado e avaliado sobre cada palavra, cada ideia, cada hesitação, cada não resposta. 

O ministro Álvaro, como todos os ministros e os que aspiram a sê-lo, deveria saber que comunicar não é apenas falar e que é melhor anunciar menos novidades de cada vez e aprofundar aquelas que anunciar. 

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4 respostas a O “ressurgimento” do ministro Álvaro

  1. Dreama diz:

    Thre’es nothing like the relief of finding what you’re looking for.

  2. Pingback: VAI E VEM

  3. Anónimo diz:

    O problema da confusão entre o sujeito e o predicado não é exclusivo do Álvaro.

    Ouvi os primeiros minutos do discurso do Pedro na ONU, e a Língua Portuguesa também foi atropelada por ele.

    Um tristeza!

    Carlos Fonseca

  4. Luis maia diz:

    A técnica habitual, já Sócrates usava, anunciar grandes medidas que passam na opinião pública como se já estivessem a ser aplicadas

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