Bem sei que um economista, mesmo tendo sido ministro, não tem de saber de tudo, ainda que se trate de “comunicação social”, matéria em que, como no futebol, abundam os “treinadores de bancada”.
É o caso do ex-ministro das Finanças, Campos e Cunha, que hoje escreve no Público um artigo sobre jornalismo e agências de comunicação.
A propósito deste caso e de “pressões” que, segundo afirma, não se exercem só no jornalismo político mas também no jornalismo económico, Campos e Cunha critica fortemente as agências de comunicação, afirmando que sem elas “uma notícia falsa ou irrelevante não apareceria na comunicação social” e que “[n]este mundo ideal não haveria papel para as agências de comunicação”.
Vindo de um economista e de um professor de Finanças não se entende o seu desejo de eliminar da economia do País uma actividade privada como qualquer outra, cujos praticantes, pelos vistos, o ex-ministro julga serem uma espécie de malfeitores que dominam os jornalistas.
Preocupado com o que considera ser “uma comunicação social crescentemente desacreditada”, o ex-ministro formula o problema da seguinte maneira: “A questão é saber se as ditas agências aperfeiçoam o mundo em que vivemos, ou o distorcem ainda mais”, e claro, a sua “presunção vai para esta última hipótese”.
Falemos então claro: como político que já foi e não deixou de ser (foi mandatário eleitoral do actual Presidente da República, é presidente da SEDES) Campos e Cunha quis, neste seu artigo, “poupar” os jornalistas, pensando, talvez bem, que convém não ficar de mal com a classe, já que a ela pertence o poder de lhe dar visibilidade e às suas ideias. Trata então de desviar a responsabilidade dos “erros”, das “manipulações” e das “mentiras” que diz encontrar na “comunicação social” para as agências de comunicação.
Ora, as agências de comunicação fazem relativamente a quem as contrata aquilo que é suposto fazerem. Aconselham os seus clientes sobre a melhor e mais eficaz maneira de comunicar, tendo em vista determinados objectivos a atingir, escolhendo para isso os interlocutores mais adequados, que podem ser jornalistas ou outros profissionais.
Ao contrário do que o ex-ministro parece pensar, as agências de comunicação possuem códigos de ética e na sua grande maioria encontram-se filiadas em organizações internacionais de prestígio. Nos EUA constituem uma actividade de grande sucesso cujo trabalho é indispensável a instituições públicas e privadas.
Nas agências de comunicação, como no jornalismo ou na universidade, há bons e maus profissionais e nem por isso se defende a sua “extinção” como o ex-ministro quase sugere para as agências de comunicação.
Se a “comunicação social” (leia-se, os jornalistas) publica “mentiras” e “erros” induzidos por agências de comunicação, o problema é mais dos jornalistas do que das agências. Como se ensina aos alunos do primeiro ano de jornalismo, o jornalismo orienta-se para a procura da verdade, possuindo um dever de equidistância face às suas fontes e aos cidadãos, tendo a sua credibilidade e a sua deontologia como fonte da sua legitimidade.
As agências de comunicação estão ao serviço dos seus clientes – constituindo-se como fontes de informação dos jornalistas e o seu papel é “convencer” estes da bondade das mensagens que lhes transmitem.
E quanto à “transparência”, diz Campos e Cunha que “se todos soubermos que a empresa pública X tem uma agência de comunicação por conta e a empresa pública Y contratou outra agência, ficamos a saber que o governo, seja ele qual for, tem duas agências indirectamente ao seu serviço”. Percebe-se o alcance do comentário (à luz do caso AICEP), mas como noutras actividades os contratos do sector público são públicos e os privados só são públicos quando o cliente o deseja.
É tempo de deixar de pensar a comunicação social, em particular as agências de comunicação, à luz das teorias da conspiração.