5 de Outubro: este e o próximo

O  discurso do Presidente da República, no 5 de Outubro, foi,  a crer nos média, um discurso consensual.Pelo meu lado, retive sobretudo esta parte:

A crise que atravessamos é uma oportunidade para que os Portugueses abandonem hábitos instalados de despesa supérflua, para que redescubram o valor republicano da austeridade digna, para que cultivem estilos de vida baseados na poupança e na contenção de gastos desmesurados, para que regressem ao consumo de produtos nacionais, para que revisitem o seu país e aí encontrem paisagens esquecidas e um património histórico que só sendo conhecido pode ser acarinhado e preservado.”

Tentei decifrar os conceitos indeterminados desta parte do discurso e ver como se poderão traduzir no dia a dia do cidadão comum já castigado com impostos incomportáveis, com ordenados reduzidos ou sem emprego. Cheguei às seguintes conclusões:

1. Por“despesa supérflua” o Presidente quis dizer que não se deve ir além de duas refeições por dia e umas bolachas pelo meio; tomar banho dia sim dia não, para poupar no gás e na água; substituir o automóvel pelos transportes públicos; não comprar roupa senão quando a que se tem estiver imprópria ou deixar de servir; mudar os filhos do colégio para a escola pública; comprar os livros escolares em segunda mão; se precisar de médico ir ao centro de saúde ou, em casos mais graves, à urgência de um hospital público, comprar só genéricos mesmo fora de prazo; resistir a pedir dinheiro emprestado aos pais ou a alguém que ainda tenha algum porque já sabe que não vai poder pagar. Pôr de parte o “hábito instalado” de ir ao cinema uma vez por mês ou de almoçar fora ao fim de semana.

2. Sobre o “consumo de produtos nacionais” entendi  que o Presidente pensa que se deve resistir a ir às compras ao El Corte Inglés e ao Pingo Doce, mas quem tiver de ir a este último não deve comprar compotas e outros alimentos importados da Polónia;

– Sobre “revisitar o país” entendi que o Presidente aconselha quem costuma fazer férias no estrangeiro a ficar cá e quem já não saía do local onde vive a continuar como até aqui e, de preferência, deitar-se mais cedo para poupar electricidade.

Entretanto…..

Um ano depois: 5 de Outubro de  2012 – discurso do Presidente:

“Portugueses, é preciso consumir não só produtos nacionais mas também estrangeiros, já que os nossos parceiros comerciais deixaram de nos comprar porque nós não lhes compramos a eles. A indústria automóvel está numa lástima pelo que é necessário começar a pensar em trocar de carro. A restauração atravessa uma crise profundíssima, e muitos restaurantes tiveram que encerrar. Há que fazer um esforço e retomar o hábito de “comer fora” sempre que possível. Muitas agências de viagens encerraram e o turismo deixou de ser uma indústria florescente. Há que voltar a a fazer férias no Algarve e no estrangeiro nem que seja só a Espanha.

Mas há também boas notícias: o El Corte Inglés esgotou a colecção de Outono-Inverno 2012-20113, especialmente as marcas italianas e francesas (a moda alemã não entusiasma os portugueses mas temos de alterar aí alguns hábitos para agradar aos nossos parceiros alemães). As vendas de telemóveis e computadores  de última geração subiram. Há mais portugueses nas listas da Forbes sobre os mais ricos do mundo. Ora, para que a crise não castigue apenas os mais fracos economicamente, já alertei o governo para a necessidade de baixar os impostos e subir os salários, de modo a repôr algum poder de compra dos portugueses e equilibrar a economia do país. 

Portugueses: Vamos ter de pedir novo empréstimo e mudar de vida, desta vez em sentido contrário – primeiro desenvolver a economia, criar emprego e depois pagar a dívida.

Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Política, Sociedade. ligação permanente.

4 respostas a 5 de Outubro: este e o próximo

  1. Caro NV, obrigada pelo seu comentário. Não disponho do seu conhecimento em matéria económica, o post apenas traduz uma reacção de senso comum a um discurso que me pareceu ….redondo.

  2. Caro Samuel, não desista de ler o blog…msmo que não tenha gostado do post. Mas não me explica porquê. De qualquer modo, coincidência ou nã, já que fala em “corrente de ar”, não é que me constipei mesmo? Será que foi “mau olhado” seu, por causa do post? ;-))

  3. Anónimo diz:

    Caros autores
    Parece-me deveras interessante o vosso texto, certeiro (ou quase) na análise e com um qb de sentido de humor que ajuda a enfrentar a dureza da realidade e a perceber a “pescadinha-de-rabo-na-boca” em que estamos metidos… ou melhor onde nos meteram.
    Ressalvado o sempre devido respeito ao Sr. Presidente da República, seja ele quem seja, que eu, republicano convicto, julgo sempre oportuno de sublinhar, qualquer pessoa atenta não pode deixar de notar a “esquizofrenia” do discurso do Professor Cavaco Silva (CS). Recordemos que CS , tanto enquanto primeiro-ministro (PM) como enquanto PR – desenvolveu a sua intervenção politica numa perspectiva económica e societária marginalista/(neo)liberal, ou seja (resumidamente) na crença de que o mercado aloca sempre o melhor possível os recursos disponíveis e que a competição económica está na origem dos avanços produtivos e que estes acabam sempre por originar saltos em frente no bem estar. Por outro lado é necessário não perder de vista que o CS-PM foi responsável pelo maior processo de liquidação do sector produtivo nacional – desde a indústria à agricultura – em nome da competitividade. Assim a linha de intervenção que CS-PR tem seguido no presente mandato e em particular desde a eleição do actual governo é em absoluto incoerente com tudo aquilo que é a sua linha de pensamento, bem como com o que foi a sua acção enquanto PM.
    E porquê?
    1º é incoerente, o apelo à opção individual no comportamento do consumidor num sistema de mercado aberto, no âmbito da teoria marginalista, está ao arrepio do conhecimento existente sobre o comportamento macro do consumo;
    2º é totalmente inconsequente – a)não existe como alimentar o mercado interno com produção nacional, pelo simples facto de que o tecido produtivo nacional – em particular a industria e a agricultura – foi liquidado pela acção dos últimos governos em obediência à agenda europeia; b) os consumidores empobrecidos estão obrigados a optar pelo produto mais barato, o que em regra não corresponde ao produto nacional; c) os consumidores que ainda mantiverem a capacidade económica de optar pagarão a crise a dobrar, para além de penalizados nos seus rendimentos, compram os produtos mais caros cujas mais-valias geradas alimentarão os processos de concentração capitalista em particular dos sectores da intermediação comercial (grandes grupos de venda a retalho) – avessos a investir no sector produtivo de base, pois as margens de lucro são baixas – que deslocarão esses capitais para o exterior, para mercados mais apetecíveis, não resultando em suma o efeito de alavancagem pretendido.
    3º é uma “batotazinha” barata, discurso para consumo interno sem consequências práticas. No fundo o que advoga CS é “vamos dar um chouriço e esperar um porco, que eles estão distraídos e ninguém vê”. É sabido que, num mundo capitalista globalizado, não há terceira-via, ou há fiscalidade sobre as transacções com o estrangeiro ou o mercado é aberto. No meio não há nada! Muito menos estas batotas de trazer por casa, dependentes da disposição patriótica ao comprar alfaces.
    4º a crise é estrutural e global, os mercados para onde Portugal exporta estão tb a atravessar problemas, consumir interno e esperar empurrar a economia com as exportações não funcionará a prazo, pois mais cedo que tarde os outros estarão a fazer o mesmo.
    Então porque segue CS esta linha? Terá CS mudado de pensamento? Obviamente, não! Esta linha discursiva reflecte não só a necessidade de apoiar o sonho neoliberal em Portugal, que deposita profundas esperanças no actual governo PSD/CDS – nomeadamente no que se refere ao processo privatizador, como a desorientação teórica em que os seguidores do actual modelo global estão, perante uma crise aparentemente financeira, mas na verdade estrutural, baseada na incapacidade do sector produtivo de base gerar mais-valias apropriáveis pelo sistema financeiro, que assenta em três contradições essenciais: a) “financeirização” da economia e crescimento desmesurado da concentração de capitais, a par, naturalmente, de um consequente empobrecimento generalizado que impede o crescimento de consumo que alimente o crescimento económico; b) super produção de bens (registando-se no entanto a contradição de a par desta situação não estarem ainda superadas as necessidades básicas) os níveis médios de consumo nas sociedades desenvolvidas são já muito levadas e só a criação de necessidades/desejo poderão fazer crescer o consumo; c) super utilização dos recursos naturais, em particular biota, água, matérias-primas minerais e petróleo, que conduz à sua escassez e consequente aumento de peso relativo do custo destes bens/factores de produção. Esta situação tem profundo impacto na actual crise por via do petróleo, principal fonte de energia primária dos processos de produção e mercantilização, os seus custos de produção/extração vem a crescer desde os anos 80, com a necessidade de se recorrer a fontes com cada vez mais difícil acesso e menor qualidade, não se vislumbrando substituto para este recurso (em particular para as necessidades “móveis” de energia, que estão no coração do comercio internacional) que se prevê esteja esgotado, ao actual ritmo de utilização, em 40-50 anos.
    Chegados aqui, estamos perante o texto “quase” certeiro a que me referi no principio… ou seja os autores identificam bem o problema (a tal pescadinha de rabo na boca) mas não concluem, ou pelo menos não concluem com a mesma “pontaria” com que assinalam o problema. Adivinha-se na vossa crítica um certo “kenesianismo” – diga-se que não é pecado original, pois é linha comum em muitos discursos da actualidade – ele também inconsequente, pois senão vejamos: da critica apresentada depreende-se à espreita a famosa alavanca kenesiana – o estado ajuda a economia, através de apoios às empresas ou ao rendimento das famílias, consome-se, produz-se, a economia cresce, consome-se mais, produz-se mais, a economia cresce mais. E é aqui que bate o “busílis” da questão, numa economia aberta e de circulação de capitais livre, os efeitos de alavanca “kenesianos” não funcionam porque as mais valias geradas quer pelo capital, quer em parte pelo trabalho – através das remessas dos trabalhadores migrantes, “perdem-se” para o espaço geográfico inicial, em favor de locais mais aprazíveis para investir e/ou com sistemas fiscais mais favoráveis (deslocalização) ou de origem dos trabalhadores (parte minor).
    Conclusão: Só uma alteração estrutural deste estado de coisas poderá fazer caminhar em frente a esperança dos portugueses e tantos outros biliões de habitantes deste planeta. Reconheça-se que o problema é complicado, pode até parecer que é demasiado grande para ser resolvido, demasiado arriscado para se tentar alter o estado das coisas. Os caminhos não são fáceis e estão totalmente fora do mainstream, julgo que em bom rigor ninguém os conhece exactamente, impõem-se construir o caminho, caminhando. Mas é necessário recordar que mesmo não sabendo qual o caminho exacto, parece ser impossível não ver qual a direcção: Reconhecer a falência do actual modelo global de desenvolvimento e remar no sentido inverso: a) aumentar o valor relativo do trabalho no processo produtivo e reduzir a concentração de capitais, ou que resultará na redução da pobreza e das injustiças sócias e na canalização dos capitais para a produção de bens que visem suprir necessidades reais e que criem emprego; b) diminuir a circulação mundial de mercadorias, reconhecendo o direito e a necessidade de tendencial auto-suficiência regional e reduzindo os consumos energéticos associados ao sistema global de transporte de mercadorias (um dos principais sorvedouros de petroleo); c) introduzir um processo de “decrescimento controlado”, reduzindo o consumo excessivo de bens supérfluos (sim, caros amigos, como roupa, viagens, gadgets, etc.) em favor de segurança (habitação, saúde, ensino, emprego), num balanço que acrescente o bem-estar e reduza a delapidação dos recursos naturais, bem como a “factura” energética; d) substituir o paradigma da competitividade, inevitavelmente e por definição geradora de excluídos, pela cooperação.
    Fácil? Não! Possível? Talvez! Mas uma coisa é certa, se continuarmos por aqui mais cedo ou mais tarde, provavelmente mais cedo que tarde, escutaremos CS a dizer a celebre frase: “O País estava à beira do abismo… mas felizmente deu um passo em frente.”
    Portanto conclusões e se possível em coerência com a análise feita é o que falta ao v/texto… ao texto e ao discurso e acção de algumas famílias politicas.
    Cumprimento agradecendo o estímulo para escrever estas palavrinhas.

    NV

  4. Samuel B diz:

    Bom dia,

    Todos os dias de manhã costumo passar uma vista de olhos neste blogue, que considero um dos mais esclarecido e que nele me revejo a maior parte das vezes.

    Foi por isso com espanto que li este seu post, que passo a escrever algumas palavras.

    Com todo o respeito que me merece, considero este post um texto literalmente demagógico, sem qualquer ponta por onde se pegue. Devo dizer que nem acabei de o ler (parei, por saber por onde iria dar, no paragrafo que faz alusão ao discurso do presidente daqui a um ano).

    Realmente não sei o que lhe passou pela cabeça hoje…

    Espero que tenha sido apenas uma corrente de ar, durante a noite, pelos pés.

    Cumprimentos.

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