Economistas… mas heterodoxos

Octávio Teixeira, economista e ex-deputado do PCP, criticou esta manhã no programa “Conselho Nacional” da Antena 1, onde é comentador “residente”, o facto de  a conferência “Economia Portuguesa: uma Economia com Futuro”, realizada no dia 30 de Setembro, na Fundação Gulbenkian, não ter merecido cobertura jornalística, a não ser um artigo publicado hoje,  quase 8 dias depois, no Jornal de Negócios.

A conferência, para a qual se inscreveram mais de 500 pessoas, foi promovida por mais de seis dezenas de professores universitários de economia e de outras ciências sociais de todas as universidades do País. Entre os participantes encontravam-se nomes como João Ferreira do Amaral, José Reis, João Rodrigues, Francisco Seixas da Costa, João Gomes Cravinho, Ulisses Garrido, Manuela Silva, José Castro Caldas, entre outros. Nem o facto de o anfitrião ser Rui Vilar, presidente da Fundação Gulbenkian, atraíu os jornalistas.

A crítica de Octávio Teixeira tem razão de ser. De facto, estavam reunidos na conferência muitos dos “ingredientes” que tornam um assunto “noticiável”: Um tema de grande actualidade, protagonistas com notoriedade e competências nas matérias em discussão,  controvérsia e crítica asseguradas, proximidade e interesse público do tema pela sua relação com a vida dos portugueses.

O que terá então sucedido para a omissão verificada quanto à sua cobertura jornalística? Várias hipóteses podem ser colocadas:

1. O evento não ter sido suficientemente publicitado:

(Argumento inválido, como se prova por um artigo de opinião publicado dias antes, onde se expunham as motivações da conferência, e por uma consulta na Internet, onde o programa esteve e está acessível;

2.  Os oradores serem, na sua maioria, “economistas de esquerda ” ou “economistas heterodoxos”, como os identifica o Jornal de Negócios na peça publicada hoje, e, como tal, não terem capacidade para influenciarem as decisões políticas dado as suas posições e propostas serem vistas como inexequíveis no enquadramento político actual:

(Argumento inaceitável do ponto de vista do pluralismo e da diversidade de pontos de vista que compete aos média levarem ao conhecimento dos cidadãos, para que estes possam realizar escolhas conscientes e informadas sobre as  alternativas que, nos diversos sectores da vida nacional, se apresentam).

Qual terá sido então o critério ou critérios que justificam a omissão quase unânime de que a conferência foi  alvo por parte dos média?

Provavelmente nenhum, a não ser….a cultura existente em  grande parte do jornalismo económico português.

Explico melhor:

É um dado comprovado pelos estudos jornalísticos  que uma das características do jornalismo é a existência de uma cultura adversarial face aos poderes. Porém, face a este exemplo e a outros também verificados recentemente, pode concluir-se que em Portugal, no que respeita aos temas económicos, o jornalismo se orienta  para a manutenção e consolidação do pensamento económico dominante.

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5 respostas a Economistas… mas heterodoxos

  1. Pingback: Asfixia democrática | VAI E VEM

  2. Obg, Anabela, tem razão, “Conselho Superior”.

  3. Anabela diz:

    O programa chama- se “Conselho Superior” e não “Conselho Nacional” .
    Podemos ouvi – lo por volta das 8h50. Ouço – o quase sempre.

  4. NV diz:

    Caros, acho que estou a gostar do vosso blog e aqui está um post em que não acrescentaria nem uma virgula, não fosse a necessidade de se perceber porque foi silenciada a conferencia, para que melhor se entenda aqui cito parte de “Um compromisso e um apelo” retirada do blog “Economia com futuro” e que reune os promotores da conferencia. Reza assim:

    “Em tomada de posição pública intitulada “Para uma nova economia”, divulgada após a aprovação do Orçamento de 2011, um numeroso grupo de professores universitários de economia e de outras ciências sociais (a que se vieram a associar muitos outros cidadãos e cidadãs) preveniu que a austeridade inscrita no Orçamento não iria conter a pressão especulativa contra Portugal e tolheria o passo às mudanças estruturais de que o País carece para alcançar um desenvolvimento sustentável.

    Nesse mesmo texto escrutinavam-se as raízes culturais, ideológicas e institucionais da crise: o menosprezo pela ética, a exaltação do “mercado”, a insensibilidade face às desigualdades e à pobreza, a desvirtuação e subestimação do papel económico do Estado, a desregulamentação da finança, o predomínio dos interesses financeiros sobre o conjunto da vida económica e da sociedade, a extensão injustificada das relações mercantis a domínios cada vez mais alargados da vida social, incluindo áreas tão sensíveis como a prestação de cuidados de saúde, a educação e a protecção na infância e na velhice.”

    (…)

    Ora aí está, se o povo souber quem são e o que pensam, estes e outros, como levar ao colo as politicas do actual governo PSD/CDS com base no “a bem da nação, não temos alternativa”?

    Cumprimenta

    NV

  5. Só nos assuntos de interesse económico? Pois, nos outros de caráter social, antecipam-se e fazem eco durante dias…

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