Quando o jornalismo vale a pena

O Público publica hoje duas entrevistas que podem considerar-se modelares: uma ao presidente da Ongoing, Nuno Vasconcelos, a outra ao ex-apresentador de televisão condenado no processo Casa Pia, Carlos Cruz. Ambas fazem manchete, a primeira, no caderno principal, a segunda na revista semanal Pública. Outros jornais trocariam certamente as manchetes. A entrevista a Carlos Cruz faria a manchete do caderno principal e a de Nuno Vasconcelos teria, quando muito, uma chamada de capa.

Numa entrevista jornalística o importante não é apenas o que diz o entrevistado. É também a capacidade que o entrevistador tem, ou não, para conduzir a entrevista, isto é, para explorar a “mente” do seu entrevistado, tentando adivinhar o que está por detrás do que ele diz e, sobretudo, do que ele não diz, levando-o a explicar os pontos mais confusos ou polémicos, “apertando-o” sem o “agredir”, deixando-o expôr ideias e expôr-se para melhor o dar, e permitir que ele se dê , a conhecer.

É claro que isto não é quase nunca possível numa entrevista de televisão, onde entrevistador e entrevistado disputam protagonismos e onde a gestão do tempo, que não é apenas responsabilidade do entrevistador mas também do entrevistado, se sobrepõe a quase tudo. Na televisão o entrevistado tem de se preocupar também com a imagem e um olhar ou uma hesitação podem traí-lo e até dizerem mais do que as suas  próprias palavras.

Não é por acaso que cada uma das entrevistas do Público durou cerca de 3 horas e também não é por acaso que em ambas as entrevistadoras referem no texto essa circunstância.

A entrevista ao presidente da Ongoing é uma entrevista dura, em alguns casos, o entrevistado fala de provocação e de insinuação, sobretudo quando as entrevistadoras – a própria directora do jornal e uma das suas mais destacadas repórteres de economia – o questionam sobre a dívida da Ongoing  ou a contratação de ex-espiões e de ex-políticos. Sendo uma entrevista aparentemente centrada nos negócios da Ongoing resulta também como uma entrevista sobre o carácter do entrevistado, que se revela um homem frio e calculista para quem o negócio não tem sentimentos nem afectos. Balsemão, o “pai” que “pode ter sido” e o Expresso, protagonizado pelo seu director adjunto, Nicolau Santos, são nesta entrevista os seus alvos principais.

Embora dono de um jornal e  de um canal de televisão temático, accionista de relevo no maior grupo de média português – a Impresa – e alegado  pretendente à privatização de um canal da RTP,  a  sua  “missão” não é  jornalística, mas sim  “criar valor para os [s]eus accionistas” que “há cinco anos” lhe disseram: “Tens aqui este capital, que é quase como se fosse um fundo de pensões da família, [t]oma lá um Fiat e, daqui a 25 anos, dá-me um Ferrari”.

Como homem de negócios que se preza de ser, fazer dinheiro parece o seu único objectivo e por isso deixa perceber que  não desdenha  vir a beneficiar das migalhas que restarão  da privatização do serviço público, para o que sugere  ao governo a seguinte estratégia: “O mais sensato seria que o Estado dissesse: não vou gastar 365 milhões de euros, nem 200 milhões. Mas está aqui um montante que vai ser distribuído pelos três canais, tendo como contrapartida a produção de qualidade.  (…) Até podia propor, numa segunda fase, ir buscar verbas aos brasileiros, aos angolanos, para promover a língua, as tradições entre países.” 

O Público acertou na legenda da manchete: “Balsemão pode ter sido um pai, mas faço aquilo que tenho que fazer contra tudo e todos”

Acrescento: Nem que seja “matar” o pai.

À margem:

O colunista do DN ALBERTO GONÇALVESde quem falei aqui, vem hoje brindar-me com uma  resposta mal amanhada nas edições papel e digital do jornal, dando-me a honra da última coluna. Depois do que na semana passada escreveu sobre a ERC (já não era a primeira vez, Azeredo Lopes chegou a responder-lhe no próprio DN) o colunista considerou-se “insultado” com o meu post. Achei graça. É que, quem semanalmente encontra sempre alguém para insultar acha-se insultado se alguém lhe responde. Já se percebeu que pensa que a liberdade de expressão é privilégio seu. 

Não vou alongar-me na desconstrução da sua prosa deste Domingo mas apenas assinalar que  o ilustre colunista nem se apercebe que de tanto querer atingir a ERC acaba a insultar o Parlamento ao considerar a ERC   “um organismo público e de nomeação partidária”, sem perceber que em democracia o Parlamento é constituído por partidos políticos e são eles que indicam e elegem os membros do Conselho Regulador da ERC. Como também acontece com o Provedor de Justiça.

O desconhecimento que demonstra sobre as funções de um regulador dos média é de tal monta que  não é possível dar-lhe resposta  no espaço de um blog.  Concedo que não se pode saber de tudo mas um pouco mais de cuidado seria aconselhável. 

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11 respostas a Quando o jornalismo vale a pena

  1. Ventura, Pinto e HP se a asneira pagasse imposto….os vossos comentários contribuiriam positivamente para diminuir o déficit…

  2. Ventura diz:

    Ah pois. E depois a dona estrelinha acha que assusta alguém vindo invocar a Liberdade (com maiúscula). Acha que tem todo o direito em ter este blog para perseguir os seus detractores porque isso é a sua liberdade de expressão (veja-se o lema deste blog). O que seria se os juízes comentassem em blogs os seus casos, o presidente do tribunal de contas os casos que vai analisando, etc., etc? Mas claro que isso para a dona estrelinha é coisa de somenos. Ninguém lhe cortará a palavra! Ninguém lhe tirará o seu poderzinho de controleira dos media. Que belo quadro mental o desta boaventurazinha.

  3. Pinto diz:

    o que pelos vistos ele não aceita que outros façam

    O quê? Leu o que escrevi? De onde é que retirou essa conclusão?
    O Alberto Gonçalves não aceita o quê? Alguma vez viu o Alberto Gonçalves a defender restrições à liberdade de expressão? Vai-me desculpar mas o Alberto Gonçalves não se chama Estrela Serrano nem trabalha para uma entidade nebulosa como a ERC.

    a um colunista (…), exige-se mais informação sobre o que escreve

    Exige quem? Alguma lei que desconheço? Ou a Estrela Serrano? Vai-me desculpar mas não consegue compreender o que significa liberdade de expressão, muito menos liberdade de imprensa.

    Verá, por exemplo, que deve elaborar bases de dados, analisar conteúdos

    Realmente haver uma entidade a elaborar bases de dados e analisar conteúdos relativamente aos órgãos de comunicação social é de uma transparência, de uma liberdade que é um espanto. Como cidadão português sinto-me reconfortado em saber que existe uma entidade que elabora bases de dados relativamente àquilo que os órgãos de comunicação dizem. É um bom exemplo da maturidade democrática do nosso país.
    Os elementos da STASI não diriam melhor.

    e pode ler um resumo no sítio da ERC. Se quiser envio-lhe artigos académicos e e referências bibliográficas sobre o que tenho escrito

    Mais esclarecido quanto ao procedimento concursal.

  4. Ventura diz:

    Nem mais HT, este blog é assim uma espécie de fazer elogios aos bons, aos jornalistas e cronistas que pensam como nós, e dar tau tau aos maus, aos feios, os que dizem mal de nós.

    Esperava-se mais de membros de um órgão constitucional? Claro que se esperava. Esperava-se uma certa “gravitas”, essa noção clássica e estranha a pindéricos e arrivistas. Mas o blog é, no fundo, a imagem do órgão e de quem o comanda.

  5. HT diz:

    Mas a Dra. Estrela Serrano ouve-se/lê-se a si própria?
    “Também me congratulo que a liberdade de expressão que caracteriza a democracia portuguesa lhe permita escrever o que pensa, o que pelos vistos ele não aceita que outros façam”

    Ao contrário de V. Exa., não consta que o Alberto Gonçalves tenha alguma vez perdido o seu tempo a “instar” os órgãos de comunicação social e os jornalistas e isto e àquilo, enfim, ao tal respeitinho-que-é-muito-lindo.

    O Alberto Gonçalves adora a polémica. É a função dele, como polemista. Não tentou silenciar ninguém, pelo que não se entende tal insinuação. Já será mais duvidoso é que entrar em polémica com um polemista caiba nas funções de um membro de um órgão constitucional, com preuízo para a imagem desse órgão – ainda que num blogue particular.

  6. Ventura diz:

    É que nem vale a pena discutir com esta gentinha da Sociologia, essa pseudociência. Acham-se sempre donas da verdade. E então quando lhe dão uma nesguinha de poder, ui ui. À dona estrelinha deram-lhe a chave da retrete da comunicação social e agora dá-se ares de importante, afinal as pessoas até têm que fazer fila para ir ao wc de que ela possui a chave. Enfim, são os resquícios do poder socratista que está a custar ser desmantelado.

    Acusar os outros de ignorância é fácil, é uma boa maneira de desviar o olhar da sua própria insignificância. O Alberto Gonçalves escreve num jornal lido por milhões, a dona estrelinha está, felizmente para a nossa higiene mental, confinada a este buraco infecto.

    Aliás é muito significativo manter um blog para se defender dos ataques que vai sofrendo aqui e ali. Interessante e triste.

  7. HT diz:

    Errado. O Parlamento é composto por deputados, eleitos através de listas partidárias e integrando grupos parlamentares.

    A autonomia dos deputados em face dos eleitores e dos seus próprios partidos é o que, em teoria, sustenta a dignidade do deputado – o mandato é representativo, e não imperativo. Em teoria, claro. Na prática, não são os deputados da Assembleia da República que definem quem ocupa os lugares na ERC, são os directórios partidários que ditam os nomes. Os deputados limitam-se a ser números de votos, à semelhança do que se passa em qualquer assembleia geral societária.

    E já agora, que dizer da nomeação de Carlos Magno, em categórico desrespeito pela lei, que determina que este é cooptado pelos 4 membros designados pelo parlamento?

  8. Como deve imaginar, toni.r.pinto, é-me completamente indiferente que o colunista Alberto Gonçalves seja liberal, marxista ou anarquista. Vivemos em democracia e ele será o que entender. Também me congratulo que a liberdade de expressão que caracteriza a democracia portuguesa lhe permita escrever o que pensa, o que pelos vistos ele não aceita que outros façam. Mas a liberdade pressupõe responsabilidade, pelo que a um colunista (para mais,sociólogo, “raça” a que também pertenço), exige-se mais informação sobre o que escreve. É só isso e já não é pouco. Sobre os seus comentários aos curriculas do pessoal da ERC enfermam do mesmo vício. Não conhece as competências da ERC mas pode lê-las nos estatutos que estão no site http://www.erc.pt. Verá, por exemplo, que deve elaborar bases de dados, analisar conteúdos, etc.etc, (é ler as atribuições e competências, as alíneas ocupam todo o alfabeto e não chegam). As pessoas a quem compete realizar esse trabalho são ou licenciadas, ou mestres ou doutoradas em ciências da comunicação, sociologia, estatística, direito. Entraram, por concurso. Quanto a mim fui eleita pela Assembleia da República por 2/3 dos deputados. O meu currículum foi discutido pelos deputados na Comissão Parlamentar de Ética e pode ler um resumo no sítio da ERC. Se quiser envio-lhe artigos académicos e e referências bibliográficas sobre o que tenho escrito. Mais alguma dúvida? Ao seu dispôr.
    Já agora: fica-lhe bem defender o seu amigo, colunista do DN. Eu acho uma boa coisa defender os amigos. E não é por ele ser liberal que o critiquei mas por não saber do que fala. tenho amigos liberais e de outras tendências e quando discordo deles digo-lhes e eles fazem o mesmo comigo. Não encomendamos defesas oficiosas a terceiros. Volte sempre que é bem vindo.

  9. Pinto diz:

    Muitos dos que criticam Alberto Gonçalves continuam sem perceber a sua ideologia política, ou dito de outra forma, a sua ideia, a sua opinião, em relação à política e ao sistema político.

    Não me falem em direitas, muito menos extremas-direitas e outras parvoíces do mesmo género. O Alberto é um liberal na verdadeira acepção da palavra. É das poucas pessoas que conheço (outro: o João Miranda que escreve no blogue Blasfémias) que se possa chamar de liberal.
    O Alberto Gonçalves critica continuamente (graças a Deus; continue assim por muitos anos) a excessiva intromissão do Estado na sociedade. Na semana passada, por exemplo, criticou a pena de morte. Não era uma crítica aos EUA, ao Irão ou à China. Era uma crítica à legitimidade de o Estado dispor literalmente da vida dos cidadãos.

    No caso em concreto Alberto Gonçalves critica a ERC pois, tal como eu, entende que a mera existência de uma entidade para regular a comunicação social é, só por si, um atentado à liberdade de imprensa. Se um órgão de comunicação social comete um suposto ilícito já existem os tribunais para o apreciar. Uma entidade para regular a comunicação social é, para além de uma coisa sombria, de utilidade muito duvidosa.

    Pois acontece que entraram por concurso e são juristas, sociólogos, analistas de média, ex-jornalistas,estatísticos

    1) A senhora entrou por concurso? Pois. é isso que ele critica.

    2) Se bem que mal pergunte, o que faz um sociólogo, um ex-jornalista ou um estatístico numa entidade cuja função, ao que parece, é apreciar (juridicamente) o trabalho dos órgãos de comunicação social? Qual foi o papel do sociólogo nesta apreciação (jurídica) que a ERC fez relativamente à foto do cadáver?

    3) Só mais uma pergunta: o que é um “analista de média”? Qual a sua formação académica? O que é que ele analisa em concreto? (vá foram três perguntas).

    o colunista considerou-se “insultado” com o meu post. Achei graça (…) Já se percebeu que pensa que a liberdade de expressão é privilégio seu

    Sim, pelos vistos sentiu-se insultado. E quando é que o ouviu ou leu a defender que o insulto deve constituir um dos limites à liberdade de expressão? Bem pelo contrário.
    Deixo-lhe aqui um excerto de um artigo seu, a propósito do caso Galliano:

    Duas curiosidades. A primeira é o Ocidente endeusar a liberdade de expressão a tal ponto que já ninguém consegue alcançá-la. A omnipresença do conceito na retórica é inversamente proporcional à sua aplicação prática. Na vida pública e, como o referido episódio demonstra, na privada também, todos são livres de expressar o que quiserem desde que não belisquem a susceptibilidade dos demais, de resto crescentemente susceptíveis.
    Engraçado. Com vasta ingenuidade, eu julgava que a liberdade de expressão protegia sobretudo a possibilidade de se dizer o que outros não gostam de ouvir. Por muito que eu ache retardado o sujeito que elogia Hitler, Lenine, “Che” Guevara, o estrangulador de Boston, a Irmandade Muçulmana ou o Topo Gigio, ele tem, ou deveria ter, o direito de o fazer. E eu tenho, ou deveria ter, o direito a achá-lo retardado. O mesmo vale, ou deveria valer, para as ofensas genéricas a pretos, brancos, homossexuais, heterossexuais, diabéticos ou manetas, hoje escrutinadas por multidões de intolerantes em nome da tolerância.

    http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1799712&seccao=Alberto%20Gon%E7alves&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-1

    Pode-se acusar o Alberto de muita coisa mas não de incoerência.

  10. Continuo “sem rebater os argumentos do articulista”, diz o leitor Ventura: Vamos então por partes: sobre a publicação da foto de Rosalina Ribeiro assassinada e abandonada no chão, na capa do SOL, o colunista do DN julga que a ERC abriu processo ao jornal por não gostar da foto. Confunde “gostos” com protecção de valores como direito à imagem (mesmo no pós-mortem) e à privacidade, que compete à ERC proteger. Sobre os casos que ele cita de casos de direito de resposta de jornais regionais (cita o Jornal de Vila do Conde), despreza um direito fundamental de defesa do bom nome de cidadãos que recorrem a um direito que a lei de imprensa lhes concede para defenderem a sua honra e o seu bom nome, pensando talvez que só alguns têm direito a isso. Desconhece também que existe uma lei da publicidade que compete à ERC fazer cumprir e cita com desprezo uma decisão nesse sentido. Enfim, como eu disse no post anterior, o colunista abriu o sítio electrónico da ERC, leu umas deliberações (só a parte final, senão tinha vista a fundamentação jurídica) e escreveu aquelas alarvidades. E na coluna deste Domingo volta a mostrar total ignorância, desta vez sobre regras básicas do funcionamento do Parlamento. Deve pensar que as pessoas a eleger pelo Parlamento para os cargos e entidades dele dependentes surgem por candidaturas espontâneas ou por inspiração divina. Sobre o estrutura interna da ERC, isto é, os seus serviços, vê-se que desconhece as suas atribuições e competências e deve pensar que as pessoas que a integram são boys e girls. Pois acontece que entraram por concurso e são juristas, sociólogos, analistas de média, ex-jornalistas,estatísticos, informáticos e administrativos, pessoas altamente qualificadas, como se prova lendo, por exemplo, os relatórios de regulação anuais e os estudos publicados, para além das 1 460 deliberações aprovadas até 31 de Dezembro de 2010 (falta contabilizar as deste ano). Experimente dar uma olhadela aqui http://www.erc.pt/pt/estudos-e-publicacoes/relatorios-de-regulacao# e conversamos depois. De qualquer modo, obrigada pela visita.

  11. Ventura diz:

    Curiosamente continuas sem rebater nenhum dos argumentos do articulista. A velha prática de desvalorizar o interlocutor já tem barbas e já não convence ninguém. Mas velhas práticas custam a morrer.

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