Jornalismo justiceiro e pseudo-moralista

Questionam alguns “o silêncio cobarde de uma série de gente, sejam os pares da chamada comunicação social, sejam os actores políticos, os reguladores, enfim, o sistema judicial”, sobre o continuum de notícias publicadas pelo Correio da Manhã nas últimas semanas, sempre com a fotografia de José Sócrates na capa e no interior do jornal, sob o título referencial “Combate à corrupção”, a propósito do “caso Cova da Beira” ocorrido em 1997, cujo julgamento está previsto para breve. Eis algumas capas:

Apesar de, segundo o próprio Correio da Manhã, “[a] 5 de Maio de 2010, o Ministério Público informa[r] os ingleses (…) que o então “primeiro-ministro não é arguido no presente processo”, tendo sido arrolado como testemunha pela arguida Ana Simões, ex-mulher de António Morais, ex-professor de José Sócrates.” , o Correio da Manhã tem levado a cabo uma campanha de perseguição ao ex-primeiro ministro, que  esta quarta feira conheceu mais um episódio.

É natural, portanto, que muitos não compreendam o que leva um jornal a encetar uma tão evidente “cruzada” contra o antigo primeiro ministro, uma vez que lendo as peças publicadas se verifica que elas se limitam a reproduzir documentos de processos sem qualquer actualidade nem novidade e sem que se perceba onde quer o jornal chegar, a não ser alimentar uma campanha contra o ex-primeiro ministro, por motivos talvez pessoais, utilizando a sua imagem como isca para atrair leitores.

Desta vez, o Correio da Manhã, vai buscar amizades e parentescos do ex-primeiro ministro – “o professor de Sócrates inscreveu-se em Janeiro de 1991 como militante do PS na Covilhã, a mesma secção de que fez parte Sócrates. Além disso, Morais é primo de Edite Estrela, madrinha de casamento do ex-governante” – numa tentativa quase desesperada de inculcar em quem o lê (e talvez nas autoridades judiciais) a convicção de que Sócrates é suspeito no processo, por ser parente, amigo ou conhecido de fulano, sicrano e beltrano.

Armado  em paladino da luta contra a corrupção, o Correio da Manhã pensa talvez que lhe basta fazer conferências e criar slogans. Mas não basta. É necessário, antes de tudo, ter credibilidade. Por exemplo, no campo do jornalismo, como é o caso, é necessário respeitar regras, como o direito ao bom nome de cidadãos, sejam ou não políticos, praticar um jornalismo isento, e sem perseguições, deixando à polícia e aos tribunais o que é da polícia e dos tribunais e ao jornalismo o que é do jornalismo.

A liberdade de imprensa inclui a liberdade editorial, isto é, a liberdade de os jornalistas escolherem o que, em cada momento, merece ser ou não noticiado. Essa liberdade pressupõe responsabilidade, honestidade intelectual, transparência nas decisões, clareza nos princípios.  Perseguir pessoas sob a capa de uma pseudo luta contra a corrupção é negar os princípios da imparcialidade, da independência e do rigor. E isso é também uma forma de corrupção.

Quando o jornalismo pretende substituir-se à justiça, armando-se em justiceiro, perde o jornalismo e perde a justiça. Em última análise, perdem os cidadãos e perde a democracia. Porque, se é possível enganar alguns durante algum tempo, não é possível enganar todos durante todo o tempo.

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2 respostas a Jornalismo justiceiro e pseudo-moralista

  1. diz:

    O ódio cega estes bois, é por isso que marram sempre para o mesmo lado.
    Há bois que se atiram ao boieiro, os do CM são vezeiros nessas marradas a ponto de já terem os cornos pequenos e de pontas arredondadas.
    É a vida.

  2. Ventura diz:

    Sempre a defender o ex-chefe. Sabe-se lá sabe os favorzinhos que trocaram. Mas é bem verdade a última frase: “não é possível enganar todos durante tanto tempo”, e como se aplica tão bem à sua repelente pessoa. Quanto ao adorado líder, esse já deixou de enganar fosse quem fosse.

    Vá lá, agora feche lá outra vez a janela para as pessoas se rirem.

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