Nada pior do que um governo amedrontado

Ontem, ao ver o primeiro ministro anunciar as medidas de austeridade de cabeça baixa, lábios apertados, óculos descaídos, a custo enfrentando as câmaras, fica-se com a sensação, já sentida nos anúncios do ministro das Finanças, de que o governo está aterrorizado, sem saber o que fazer, descobrindo, pela primeira vez, que “falou demais” antes de ser governo.

Foi  particularmente visível que o primeiro ministro não sabe, ou não quer dizer, branco no preto, porque razão cada vez que fala “descobre” novos buracos sem dizer onde e quanto atingem, porque não os “descobriu” antes ou, se os “descobriu”, porque não os anunciou logo. Lança suspeitas veladas sobre o passado deixando que elas recaiam todas sobre o governo anterior, sem as assumir nem as concretizar.

A sensação que a sua intervenção de ontem e as anteriores  deixam nas pessoas é ainda pior do que constatar que está a fazer tudo ao contrário do que disse que ia fazer antes de ser eleito. Também  nos lembramos de que o seu partido e  (os partidos da oposição parlamentar – PCP e BE) se opuseram a todas as propostas do governo socialista minoritário sempre que este pretendia introduzir alterações que representassem diminuição do poder de compra dos portugueses. Pois agora, de diminuição em diminuição, já  há pouco para diminuir sendo que alguns estarão  já a viver do que foram poupando  durante o tempo em que “viviam acima das possibilidades”.

Já é indisfarçável a incapacidade do governo, que não é apenas de comunicação, para mostrar um caminho para a saída da crise, que não passe por mais impostos, mais recessão, mais desemprego, isto é,  mais atraso, mais pobreza, mais sacrifícios. Não há rasgo nem visão, há apenas a repetição de modelos gastos e ineficazes.

O salto em frente e o “ir mais longe” face ao programa da troika que tanto parece orgulhar  o Governo traduz apenas, afinal, o medo de não conseguir controlar a situação.

E nada pior do que termos um governo amedrontado. Em vez de soluções transmite desânimo, revolta, desconfiança. 

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