Uma leitura “cínica” das palavras do Presidente

O Presidente da República “caíu  em desgraça” junto de muitos “cavaquistas” e de outros que não sendo “cavaquistas” são seus apoiantes e admiradores: Eduardo Catroga, Marques Mendes, Mira Amaral, Francisco VanZeller, Lobo Xavier, Pires de Lima, foram implacáveis na reprovação que fizeram de Cavaco Silva pelas suas críticas aos cortes dos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos. Lobo Xavier juntou à crítica do conteúdo a crítica ao lugar – na rua, entre portas – e ao momento – após a apresentação do orçamento – em que o Presidente fez essas declarações.

Lobo Xavier, porventura o mais duro nas críticas (proferidas no programa Quadratura do Círculo, da SIC Notícias), esqueceu-se de que algumas das mais importantes declarações de governantes e presidentes são feitas na rua, entre portas, à saída de eventos. De facto, não é uma boa ideia, tanto mais que, por vezes, preferem dizer  coisas novas e polémicas  na rua e não em situações mais formais, como sejam entrevistas ou conferências de imprensa.  

Passos Coelho adoptou a mesma prática na reacção às palavras do Presidente: na rua, à saída do mesmo evento onde Cavaco o criticara,  respondeu a Cavaco, não respondendo.

Em muitos desses casos, os jornalistas são informados de que “vai haver declarações” no final e então guardam-se para essas declarações em vez de se preocuparem com o evento que era suposto estarem a cobrir. 

Há também casos em que um assessor “segreda” a um jornalista mais “próximo” que se fizer uma determinada pergunta terá uma resposta “interessante”.

Não sei se algumas destas hipóteses se verificou com as declarações do Presidente sobre o orçamento, mas tudo leva a crer que sim, uma vez que Cavaco Silva falou medindo as palavras e com o discurso preparado, isto é, o Presidente quis  dizer o que disse no momento e no lugar onde o disse, por muito que isso tenha decepcionado os seus apoiantes. 

Costuma dizer-se que o Presidente não faz nada por acaso e é um “verdadeiro” político. Talvez haja então uma justificação para que o Presidente tenha dito o que disse. É que, sabendo-se da sua admiração pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, o qual, segundo revelou o «Expresso» na sua edição de sábado passado não defendia a opção que viria a ficar no orçamento tendo porém a sua proposta sido derrotada pela maioria dos governantes, só depois tendo avançado o corte dos subsídios de férias e Natal para pensionistas e funcionários, o Presidente quis dar um sinal a Vítor Gaspar de que estava “do seu lado”, quem sabe, receando que ele “batesse com a porta”.

Esta é talvez uma leitura “cínica” dos acontecimentos. Mas parece lógica.

Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Política, Sociedade. ligação permanente.

2 respostas a Uma leitura “cínica” das palavras do Presidente

  1. Ver também a nossa leitura, em “As Sombras da Revolta”…

  2. Demasiado restrita para tão devastador efeito.

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