Diz o funcionário público para o “subvencionado” : “dá-me a tua subvenção que eu dou-te o meu ordenado”

Nada como ter voz no espaço  mediático. As notícias de que pessoas e categorias profissionais influentes podem vir a ser  atingidas pelos cortes ditados pelo orçamento, têm a vantagem de mostrar a verdadeira dimensão da desigualdade entre os portugueses. Fazem lembrar aquele pobre que disse para o rico: dá-me os teus descontos que eu dou-te o meu ordenado”.

Mas é bom ouvir os “poderosos” reclamaram os seus direitos.

 Ouça-se Ângelo Correia,  ex-ministro, beneficiário de subvenção vitalícia, administrador no sector privado:

“(…) Os direitos que nós temos são direitos adquiridos legalmente, no sentido que foi um cumprimento de contrapartida, dávida, uma contrapartida  perante aquilo que durante 20 anos as pessoas desempenharam, em muitos casos com dedicação de tempo que lhes comprometeu uma parte da sua vida profissional”.

António Martins, Presidente da Associação Sindical dos Juízes veio em defesa dos juízes: 

Os cortes nos subsídios de férias e de Natal são “brutais, discricionários e discriminatórios” e, por isso, a Associação Sindical de Juízes promete combater a medida encontrada pelo governo para equilibrar o défice orçamental. (…) as receitas necessárias devem ser obtidas por via dos impostos sobre o rendimento do trabalho e do capital, e segundo a lógica de “quem mais ganha, mais paga”. A Associação Sindical dos Juízes garante aos “seus concidadãos” que vai lutar pela proteção dos direitos fundamentais das pessoas contra “os interesses ilegítimos do Estado”.

Tem razão o ex-ministro Ângelo Correia no que respeita a pretender manter “direitos adquiridos legalmente”. É isso também que pretendem os funcionários públicos quanto aos subsídios de férias e de Natal e que os juízes querem igualmente manter.

Mas desculpar-me-ão os senhores ex-ministros e outros ex que beneficiam da subvenção vitalícia. Se ocuparam muito tempo em cargos públicos e isso prejudicou  parte da sua vida profissional, tinham bom remédio: não aceitavam esses cargos, dado que não há ninguém insubstituível.

Porém, a crer na notícia sobre os rendimentos de 15 políticos portugueses antes e depois de passarem pelo Governo , não foi bem isso que aconteceu mas sim o contrário.

Acresce que também outras pessoas  trabalharam com os políticos que beneficiam da subvenção vitalícia, algumas durante o mesmo tempo que eles. Porém essas pessoas, quase sempre possuidoras de qualificações técnicas, saíram de “mãos a abanar”, sendo que as que não possuíam lugar de recuo, tiveram de ir à procura de emprego.

Há, é certo, muita demagogia na crítica aos vencimentos dos políticos que, como se sabe, quando no activo auferem  salários muito inferiores aos dos administradores de empresas públicas e privadas.

Mas, num momento em que o governo está a realizar um verdadeiro assalto ao bolso do cidadão comum ouvir reivindicações de “dádivas” (para usar as palavras de Ângelo Correia) que em alguns casos são superiores aos vencimentos de quadros médios e superiores do funcionalismo público, é demais.

Também aqui é preciso decoro. Ou, actualizando o diálogo acima citado, Diz o  funcionário público para o “subvencionado” : “dá-me a tua subvenção que eu dou-te o meu ordenado”. 

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3 respostas a Diz o funcionário público para o “subvencionado” : “dá-me a tua subvenção que eu dou-te o meu ordenado”

  1. C. Madorno diz:

    Por acaso acho que Ângelo Correia tem razão. Tal como a têm os funcionários públicos e os pensionistas. Ou não?

  2. Ora bem! E quantos serão? Dizem que 400, mas era bom que a comunicação social pusesse cá fora, de uma vez, “Todos os nomes”, para lhes darmos o crédito que merecem quando aparecem na TV (naturalmente avençados) a dizer: Corte-se nos salários e outras patacoadas…

  3. João Figueiredo diz:

    Se não tivesse ocupado os cargos políticos que ocupou, é provável que Ângelo Correia nunca tivesse chegado a ser o “empresário de sucesso” que é hoje.

    Por mim, conheci-o na década de 1990, num grupo empresarial onde trabalhei, cujo accionista largamente maioritário recrutava, no PS e no PSD, aquilo a que nas empresas chamávamos de “administradores políticos”, que serviam de gazua nos meios governamentais sempre que fosse necessário. Ele foi administrador de uma dessas empresas.

    Tal como aconteceu com muitos outros, a política (onde não voltou de forma activa) serviu-lhe de trampolim.

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