O “estripador” fez afinal uma “vítima”

Tal como disseram nas televisões os homens que há anos investigaram o caso do “estripador de Lisboa” também eu gostava que a jornalista Felícia Cabrita e o jornal Sol tivessem “descoberto” o” serial killer que matou três prostitutas sem deixar rasto. E gostava porque mesmo com os crimes prescritos era justo que as famílias das vítimas e a sociedade em geral soubessem quem era o assassino.

Mas gostava ainda mais que a estória contada pelo Sol e seguida por outros jornais e televisões fosse verdadeira porque se não o for a vítima principal será, desta vez, o jornal que a publicou, a jornalista que a “descobriu” e, por arrasto, o que é mais grave, um certo jornalismo feito de casos de polícia e tribunais, de segredos e de escutas…pagando o justo pelo pecador, o que é injusto.

Ao ouvir, hoje, o filho do alegado “estripador” dizer à RTP, entre outras coisas inacreditáveis, que “na altura em que [o pai] andava a falar com ela [Felícia Cabrita], ouviu [o pai] dizer  que estava a brincar com a Felícia”, fiquei a pensar em tudo o que esta simples frase contém nas entrelinhas. 

O “não dito” desta frase revela  uma deplorável cumplicidade (consentida?) e uma falta de consideração  por “ela”, a jornalista com quem o “pai” afinal estava “a brincar”…

Depois das contradições e das hesitações do “estripador”, percepíveis desde os primeiros vídeos da entrevista libertados pelo Sol,  e da demarcação dos investigadores policiais e das dúvidas dos psicólogos e outros especialistas que se pronunciaram nas televisões, só faltava mesmo ouvir o filho do alegado “estripador”, e concorrente falhado à Casa dos Segredos, vir agora dizer que o pai andou a brincar com a jornalista…

É demasiado mau para ser verdade. Espero bem que a jornalista e  o jornal tenham mesmo encontrado o verdadeiro estripador.

Porém, com ou sem “estripador” este caso não pode, não deve, ficar por aqui. Porque o jornalismo é demasiado importante para a cidadania para poder ser assim manchado.

Podem os comentadores, como foi o caso, hoje, do professor Marcelo, e de outros que pretendem viver nas “boas graças” dos directores dos órgãos de comunicação social, fingir que não percebem que o que está em causa neste caso não são apenas os prazos de prescrição ou o desejo de um jovem querer entrar num programa de televisão. 

Podem fingir que não percebem mas não os levamos a sério. Eu não os levo a sério.

 

 

 

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4 respostas a O “estripador” fez afinal uma “vítima”

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  3. Meo diz:

    Neste momento ainda não sabemos o desfecho deste caso, mas uma lição já podemos tirar: jornalismo de investigação só mesmo com investigação! E já agora – mesmo que a Felícia Cabrita tenha desvendado mais uma grande história – uma coisa faltou-lhe pela certa: prudência. Não teria sido preferível deixar a PJ esclarecer tudo antes de fazer uma manchete? Eu, como tantos colegas jornalistas, sabemos que alguns exclusivos são difíceis de guardar. Mas eu, ao contrário de muitos colegas, não admito viver numa sociedade do vale tudo, repleta de irresponsabilidade. Perder uma manchete parece-me um preço justo a pagar quando a dúvida é do tamanho XXXL. Quem não sabe isso arrisca-se a perder… MUITO…. incluindo a sua credibilidade. Lamentavelmente muitos jornalistas (felizmente não a Felícia Cabrita, espero eu) teimam em defender um lema: “Não deixe que a verdade estrague uma boa história”. Não são meus colegas, são simplesmente maus jornalistas!!!

  4. diz:

    Está a ser ingrata. Então o Marcelo, se percebesse o caso do estripado Sol, não teorizava sobre o buraco em que estão metidos , Sol e jornalista? Claro que sim.
    Marcelo é um descuidado, sempre com falta de tempo, de um lado para o outro.Marcelo raramente tem tempo para pensar nele, sempre a pensar nos outros, não é?…

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