Três hipóteses para três entrevistas

É  pouco frequente um primeiro ministro dar três entrevistas “de fundo”, no espaço de pouco mais de duas semanas, duas delas a canais do mesmo grupo (SIC e SIC Notícias) e a terceira (segunda, por ordem cronológica) a um jornal  (o Público) . 

O primeiro ministro é Passos Coelho e os entrevistadores foram: na primeira entrevista, à SIC, José Gomes Ferreira; na segunda, ao Público, Maria João Avillez; na terceira, à SIC Notícias, a “dupla” Martim Cabral e Nuno Rogeiro, (realizada esta terça-feira).

Não se percebeu bem a estratégia da “acumulação” de entrevistas, uma vez que não se extraíram dessas entrevistas novidades que as justifiquem, a não ser a existência de “um excedente de cerca de dois mil milhões de euros para «pagamentos à economia»”, anunciada na entrevista ao Público.

Ensaiemos então hipóteses de explicação para este “cúmulo” de entrevistas:

1ª hipótese: o  objectivo das entrevistas foi  produzir sucessivamente temáticas para discussão nos espaços de debate e comentário dos canais televisivos do cabo e nas redes sociais, para “abafar” a discussão de medidas polémicas entretanto anunciadas como os aumentos no serviço nacional de saúde, a meia hora de trabalho a mais, a privatização da EDP, o abandono do projecto da Nissan em Cacia, entre outras. (De facto, todas as entrevistas foram seguidas de debate e comentário em jornais rádios e televisões, durante dias a fio).  

2.ª hipotese: as três entrevistas foram consequência umas das outras. Tendo  ficado insatisfeito com a primeira  – segundo os comentadores não disse nada de novo – combinou a segunda. Apercebendo-se de que, nesta, a questão da “folga”no orçamento não caíu bem, decidiu dar a terceira, esta sobre a “Europa”, que prometia conversa desanuviada dado o perfil dos dois entrevistadores. Adoptou uma  atitude descontraída, sem ameaças de novas medidas de austeridade, para passar a ideia de que com as suas políticas as coisas estão bem encaminhadas.

3.ª hipótese: não existiu estratégia nenhuma. O primeiro ministro aceita dar entrevistas mesmo sem ter nada de novo para dizer. 

Nota: no debate que se seguiu à terceira entrevista, na SICN, esta terça feira, os comentadores conseguiram concluir que o primeiro ministro revelou que não defende “a ideologia da pobreza” e que esta não é “objectivo” mas sim “consequência”. Estranharam também o facto de o primeiro ministro estar “muito”  “descontraído” .

Conclusão: não admira que nada de especialmente novo tenha resultado das entrevistas. É que nesses mesmos dias o primeiro ministro falou antes e depois das entrevistas, à entrada ou à saída de eventos onde também falou. E não há assim tanto para dizer.

 

 

 

Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Política, Sociedade, Sociologia dos Média. ligação permanente.

2 respostas a Três hipóteses para três entrevistas

  1. Pingback: Em força para Angola | VAI E VEM

  2. Manojas diz:

    Talvez haja outras hipóteses ou intenções, mas essas só os senhores Belmiro e Balsemão, patrões do Público e das SICs, e dos entrevistadores, as poderão revelar. Não foi certamente por acaso que as três entrevistas se fizeram em tão pouco espaço de tempo.

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