Chineses detidos em “exclusivo” para a TVI

Em Portugal existe em algumas instituições e departamentos oficiais o mau hábito de convidar jornalistas para acompanharem as suas acções de fiscalização. Escolhem geralmente uma ou mais televisões, um ou outro jornal e algumas vezes uma ou outra rádio, proporcionando-lhes reportagens muito “coloridas” envolvendo o aparato da chegada dos inspectores, as buscas, os “apanhados” a serem revistados, etc., etc.. 

As reportagens são emitidas pelos média “convidados” como “exclusivos” mesmo quando os exclusivos abrangem vários deles. Já tivemos, com vários governos, “rusgas” no Casal Ventoso com polícias, televisões e ministros, africanos encostados ao muro  no Tamariz para serem revistados pela polícia com a televisão a filmar avisada antes, etc..

A ASAE distinguiu-se desde a sua existência pela mediatização programada das suas acções de fiscalização junto de chineses, o que muito a popularizou nomeadamente através das imagens das baratas e aranhas nas cozinhas, emitidas pelas televisões.

Há uns meses que não tínhamos disso mas ontem a TVI teve direito a uma reportagem em “exclusivo” sobre “sete chineses cuja detenção presenciou em exclusivo“. A TVI chama-lhe “vídeo exclusivo”. As cenas são as do costume: um chinês a ser revistado, sem preocupação de ocultação do seu rosto, outro a assinar um papel, o chefe da “brigada” da ASAE a ser entrevistado e imagens dos volumes apreendidos.

Ninguém no seu perfeito juízo contestará o interesse público e a relevância social de acções de fiscalização e de apreensão de produtos ou detenção de pessoas que pratiquem actos ilegais ou atentatórios da saúde pública. É esse o papel das autoridades policiais e militares ou para-militares. Tão pouco se questiona que seja dado conhecimento público do resultado dessas acções.

Contudo, por definição, para ser eficaz a fiscalização actua de surpresa e discretamente. Porém, em Portugal, certas acções de fiscalização parecem visar mais a obtenção de efeitos mediáticos, seja para “mostrar serviço” seja para criar “boas relações” com alguns média aos quais  concedem “exclusivos”, do que propriamente proteger a saúde e o bem públicos.

Acresce que partindo de órgãos da administração pública lhes caberia respeitar  o direito à imagem daqueles que vão fiscalizar, sejam chineses, africanos ou portugueses.

Do lado dos jornalistas, espera-se que se interroguem sobre facilidades oferecidas ou sugeridas por entidades exteriores à redacção, incluindo os casos em que estas lhes facultem acesso a informação que, por si só, teriam dificuldade em obter.

Não se trata de recusar “a priori” a colaboração de pessoas ou entidades na procura de informação, uma vez que o jornalista depende de múltiplas fontes, directas ou indirectas, mas de ter presente um dos princípios básicos do jornalismo, que diz que “uma fonte é sempre parte interessada”. Significa isto que, para além da avaliação da credibilidade da fonte, é suposto o jornalista colocar a si próprio a questão de saber se a facilidade concedida por essa fonte corresponde a algum interesse particular ou se nada mais visa que o direito do público à informação.

Estes princípios, valem, é claro, para todas as fontes, incluindo as judiciais que, ultimamente, se têm destacado por “exclusivos” de grande espectacularidade (vidé detenção de Duarte Lima). É que nestas coisas, há regras a cumprir de ambos os lados.

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7 respostas a Chineses detidos em “exclusivo” para a TVI

  1. Pingback: A RTP e “o homem mais procurado do País” | VAI E VEM

  2. Perpétua Santos Silva diz:

    pois… e as baratas no Hotel da linha do Estoril? Essas não eram de chineses… Uma vergonha. Concordo em absoluto com o João Paulo Meneses.

  3. João Paulo Meneses diz:

    Esta reportagem não seria possível entre portugueses; há, parece-me, uma menorização e sobretudo um desrespeito pelos cidadãos em causa, o que deveria levar a uma intervenção do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural

  4. cannis ter diz:

    chineses na RTP ainda não?

  5. Luis Cero diz:

    Adivinhado? Não.
    Tomado conhecimento (o que não é difícil) durante o decurso da operação? Sim.

  6. Caro Luís Cero, sugere que adivinharam? em casos anteriores foram convidados ou avisados, como queira, o resultado é o mesmo.

  7. Luis Cero diz:

    Terão sido avisados? Não terão tido conhecimento e avançado em reportagem para o local?

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