Transparência também para os jornais

A maneira como os jornais tratam e interpretam os  dados da Associação Portuguesa para o Controlo da Tiragem e Circulação (APCT) torna a leitura comparativa desses dados nos diversos jornais um exercício extremamente elucidativo. Salvaguardando algumas excepções, cada jornal olha para os dados segundo os seus próprios interesses, explorando o indicador que lhe é mais favorável. Vejam-se alguns títulos baseados nos dados da APCT publicados esta quinta-feira:

        

Entre os indicadores estabelecidos pela APCT para auditar a imprensa os  mais importantes para se conhecer a aceitação e o interesse que um jornal merece são essencialmente a “circulação paga” (circulação total, deduzida dos exemplares oferecidos e daqueles que são objecto de venda ou assinatura por um preço inferior a 50% ao de capa) e as “sobras” (total dos exemplares de uma determinada edição, que não tenham sido objecto de venda ou oferta, devolvidos ou não, ao Editor), uma vez que a “tiragem” é de publicação obrigatória.

Como mostra esta notícia do Público, os resultados podem ser muito diferentes consoante o indicador que se privilegia. Seja, porém, qual for a opção de cada jornal ao puxar pelas “vendas em banca” (exclui assinaturas e ofertas), pela “circulação paga“, pelas “vendas em bloco“, pela ” circulação total” (inclui vendas, assinaturas e ofertas),  pelas médias do ano ou dos  últimos meses, há um dado incontornável que é o  baixo índice de vendas da quase generalidade da imprensa portuguesa.

Apenas o Correio da Manhã e o Expresso ultrapassam os 100 mil exemplares de circulação  paga, sendo que alguns não chegam aos 10 mil exemplares diários e outros não atingem os 20 mil.

Ora, os jornais vivem das vendas e da publicidade e esta investe onde há leitores. Por outro lado, os proprietários dos jornais não são propriamente beneméritos que publicam jornais  para perderem dinheiro. Os jornais são empresas privadas que procuram o lucro. Em alguns casos, podem suportar um jornal que dá prejuízo em nome sobretudo do prestígio que ele lhes proporciona (caso de jornais de referência, como por ex. o Público, e de títulos históricos, como por ex. o DN) ou em nome de um poder de influência (como por ex. os jornais económicos, Sol, i…).

A democracia necessita de uma imprensa forte porque só assim será independente.  A independência requer transparência dos grupos e das empresas que a sustentam. A manipulação dos dados sobre vendas, circulação e outros, a opacidade (ou secretismo) de alguns indicadores, como as assinaturas, ofertas, vendas em bloco, sobras, etc., são sinónimo de falta de transparência.

Ora, se a imprensa escamoteia ou manipula dados sobre a sua situação real como pode esperar que os cidadãos confiem em que fará diferente relativamente a outros assuntos?

Leia-se o que o director do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro, afirmou ao  “Meios & Publicidade”: Não parece possível a continuidade de acções de dumping, tendentes a esconder pronunciados declínios de vendas com anacrónicos êxitos em campanhas de assinaturas para jornais diários impressos; isto, na década do digital. Alguém acredita? Por favor, meus senhores, matem a galinha mas não prometam depois ovos ao mercado.” 

 

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2 respostas a Transparência também para os jornais

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