A informação vai ficar mais pobre (Actualizado)

Os estudos jornalísticos mostram que há notícias onde há jornalistas. Como não há jornalistas em muitas partes do mundo, não há notícias de muitas partes do mundo. Isto é cada vez mais verdade entre nós, porque os meios de comunicação social vivem em crise permanente, vendendo cada vez menos e tendo cada vez menos receitas de publicidade.  Quando se fecham delegações e fundem secções, distribuindo e “diluindo” jornalistas, o resultado é sempre um empobrecimento da informação. Quando isso acontece na única agência portuguesa de notícias, o empobrecimento é ainda maior e de consequências mais gravosas para o direito dos cidadãos à informação. 

A notícia de que a agência As mudanças na redacção estão previstas já para o próximo mêsLusa vai acabar  com secções de cultura e lusofonia e encerra escritórios de três cidades é, a todos os títulos, preocupante. 

Pode ser que seja apenas uma “remodelação”, eufemismo tantas vezes usado para acabar com serviços, despedir pessoas, etc., etc.. e que por acabarem as secções não acabem os temas que nelas são tratados.

A cultura já é um parente pobre da informação. Com honrosas excepções, as velhas secções de cultura são coisas da pré-história, substituídas por secções mais vistosas e atraentes. É certo que a cultura perpassa toda a vida em sociedade, não sendo necessário compartimentá-la em secções para a tornar visível. Mas retirar-lhe o estatuto de alguma autonomia já é fazê-la morrer um pouco.

Vendo bem, não admira: o governo foi o primeiro a despromover a cultura, dando-lhe um secretário de Estado, com uma “área” (na Internet) mas sem secretaria de Estado, apenas com um molhe de assessores.

E a lusofonia? os investidores angolanos de que se vai falando resolverão talvez o problema … e teremos, quem sabe, um jornalismo “à medida”.

A Lusa presta um serviço público indo a sítios onde os outros não vão e dando notícias desses sítios. “Alimenta” publicações, rádios e televisões que cada vez menos dispõem de pessoal especializado para acompanhar temas e actividades fora da informação mainstream.

Fechar as delegações de Coimbra, Évora e Faro, como se anuncia, “distribuindo os jornalistas pela rede nacional”, poderá trazer à  agência poupanças residuais. Mas a democracia e o direito dos cidadãos à informação ficam mais pobres, talvez continuemos a saber de inundações, incêndios, desastres nessas cidades. Um repórter irá “ao local” para o “directo” das televisões e pouco mais…

Nem de propósito. Ontem fui a Coimbra assistir às provas de agregação de uma amiga e colega. Cheguei de combóio, havia meia dúzia de pessoas na carruagem em que eu seguia. Tomo um táxi para a Universidade, uma pessoa que não conheço pergunta-me se vou para “Coimbra A” e pede-me para partilhar o táxi. Meto conversa com o taxista. Coimbra “parou”, diz-me, “não chegam pessoas nem de combóio nem de carro”, “muitas empresas fecharam e não há movimento de negócios, como antes havia”….

A secção local da Lusa é mais uma a fechar….

Actualização

Comentário de Afonso Camões, administrador da Agência Lusa:

Estrela, amiga: Subscrevo o que dizes no teu blogue, mas partes de uma premissa errada. É obviamente falso o que se diz por aí. Mas sabes tão bem quanto eu que não adianta esclarecer  quem não quer ser esclarecido. Como tenho a certeza de que não é o teu caso, …
1. O que há é, apenas e só, um reagrupamento de chefias, proposto pela Direção de Informação e com o meu apoio.
2. É para racionalizar recursos e custos? É!
3. A Lusa vai diminuir a produção noticiosa nesta área? Nem pensar! Pelo contrário, temos vindo a aumentá-la. Crescemos 30 por cento na produção de conteúdos únicos nos dois últimos anos e, só em 2011, distribuímos 12.4069 peças na área da cultura e das artes, com uma taxa de aproveitamento superior a 90 por cento junto dos nossos clientes – jornais, rádios, tv, sites, etc. (conferir Relatório de Serviço Público, que aliás é sujeito a auditoria externa). 4. Não vamos, pois, diminuir a produção na área cultural, pelo contrário. Tanto mais que temos Guimarães Capital da Cultura e investimos nesse acompanhamento alguns dos nossos mais qualificados jornalistas. Porfiemos.

 

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3 respostas a A informação vai ficar mais pobre (Actualizado)

  1. Ola, pois, quem mata Coimbra sao os burrocratas partidarios em seu cinismo .Ha meio seculo destruiram 11 igrejas no povoado da alta para construirem as novas faculdades junto da velha universidade (antigo palacio real).Deslocaram-se os cidadaos para novas areas onde podiam e deviam ter sido construidas as faculdades (menos conflituoso socialmente , mais economico e mais funcional).Mandou,manda e vai continuar a mandar.O Doutor e o Engenheiro ainda nao sabe que a secura da folha pode ser o severo nela ou na raiz.? Ate …

  2. Pedro diz:

    O que é um molhe de assessores?

  3. Vicente Silva diz:

    Não estaremos nós a ser governados já por ET’s vindos de qualquer planeta junto à estrela Vega como Carl Sagan magistralmente descreve no se romance CONTACTO?.Será que esses extra terrestres dispoem do poder de substituir os meios de comunicação existentes neste atrasado planeta, utilizando por exemplo ultra sons,ondas magnéticas ou outros elementos totalmente desconhecidos por nós humanos?
    Não será possivel que um simples chip nos dê acesso a todo o conhecimento e informação em tempo real?Estes ET’s bem poderão revolucionar este país ou faze-lo cair num buraco negro..

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