Sobre o fim do programa da Antena 1, várias coisas.


Fotografia de Adriano Miranda/Público

Pertenço ao grupo de pessoas que não apreciaram o programa da RTP 1 emitido de Angola, no passado dia 16. Não porque não fosse importante do ponto de vista do interesse público discutir as relações entre os dois países num momento em que Angola acolhe tantos portugueses e Portugal lhe “estende a mão” à procura de parcerias algumas das quais se podem tornar escaldantes.

A questão é que o programa andou nas margens de tudo o que seria importante discutir. Não me incomodou a presença do ministro Miguel Relvas e do seu parceiro angolano (como algumas críticas que li, de pessoas que não podem ver ministros na RTP. Pois eu acho que eles têm obrigação de ir à televisão pública prestar contas da governação e ser questionados, sem reverência, sobre as decisões que tomam. Não se trata de um privilégio mas de um dever). No programa emitido de Angola incomodaram-me mais as ausências do que as presenças. E também do ponto de vista estético o programa era mau, uma espécie de televisão do século passado…

Não é, porém, esse programa o que aqui me traz, mas a polémica desencadeada por a RTP/Antena 1 ter posto fim a um programa em cuja ficha se diz que é um Espaço de opinião sobre novas tendências. 2ª Feira – António Granado – Mundo Cibernético 3ª Feira – Pedro Rosa Mendes – O Mundo 4ª Feira – Raquel Freire – Novas tendências sociais 5ª Feira – Rita Matos – Gourmet, sabores, luxos 6ª Feira – Gonçalo Cadilhe – Viagens Apresentação de Ricardo Alexandre De 2ª a 6ª Feira – 09h45

Não sei quem fala verdade sobre o fim do programa: se os autores das crónicas, que acusam a RTP de os despedir por não gostar das suas opiniões, nomeadamente a crítica de um dos autores – Pedro Rosa Mendes – a Angola e ao programa da RTP em que foi tema; se os responsáveis da RTP que afirmam  que a decisão já estava tomada antes dessa crónica ser emitida.

Se o fim do programa se deve a qualquer razão relacionada com a crónica de Pedro Rosa Mendes ou a outras opiniões do autor, é lamentável e indigno. Se a decisão foi “inspirada” por algum poder (político ou outro) estranho à redacção da RTP/Antena 1,  é ainda pior. Em qualquer caso  merece esclarecimento. 

Mas se o fim do programa se deve a uma decisão livre e pensada da direcção editorial do canal, essa decisão é legítima, legal  e deve ser respeitada. Era o que faltava que um director, que é o responsável pelos conteúdos emitidos, não pudesse tomar decisões quanto à mudança de colaboradores e à duração dos programas do canal que dirige!

Falta, porém, acrescentar algo mais: Ouvi as duas “crónicas” que motivaram a polémica. Uma delas – da cineasta Raquel Freire é um planfleto com palavras sonantes e inflamadas, muito crítica da situação do país e de incitamento à “acção”, coisas do género das que  lemos em blogs, no FB, no twitter e que podem até ouvir-se nos transportes públicos e nos mercados.

A outra, de Pedro Rosa Mendes, essa sim,  estruturada e fundamentada, de alguém que conhece o país sobre que fala, desfere uma crítica violentíssima ao governo de Angola e ao programa da RTP1. Acredito que tenha provocado mossa nos governantes portugueses e angolanos. Mas daí a dizer que essa crónica levou ao fim do programa é preciso provar que assim foi. 

Não deixa contudo de ser chocante que só após saberem que a sua colaboração terminara os autores se desdobrem em entrevistas a criticarem a RTP e as “pressões” que recebiam. Porque não as denunciaram antes tomando a atitude que se impunha (se assim foi) isto é, saírem “pelo seu próprio pé”?

É que tornou-se moda em Portugal cada vez que um director de uma televisão, rádio ou jornal muda colaboradores estes queixarem-se de “censura”. Querem assento e cachet perpétuos? Pois o serviço público, mais que os média privados, tem obrigação de renovar os seus comentadores e abrir as suas antenas à pluralidade de vozes. É que crónicas como esta que ouvi, da colaboradora cineasta, há muita gente que sabe fazer (não é o caso, por exemplo, de António Granado, habilitado como poucos para falar do tema que lhe cabe: “Mundo Cibernético”).

Há também que perguntar à RTP se quando contrata colaboradores não lhes define o número de “colaborações” a cumprir, bem como algumas regras quanto ao perfil do canal, âmbito da colaboração, etc., etc.. A crer no que tem sido publicado, parece haver algum amadorismo e improviso na contratação de colaboradores…assim do género “tudo ao molhe e fé em Deus…” Ora, isso não é aceitável, para mais na rádio pública!

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7 respostas a Sobre o fim do programa da Antena 1, várias coisas.

  1. Pingback: Liberdade não é deboche | VAI E VEM

  2. O nome tem uma gralha: é Adriano Miranda e não Adriano Mirando. Erro meu.

    Obrigado.

  3. Muito obrigada, Hugo Torres, já incluí a informação. O seu a seu dono.

  4. Estrela Serrano,

    o crédito da fotografia é Adriano Mirando/PÚBLICO. Foi publicada na primeira notícia sobre o caso Antena 1 (http://publico.pt/1530757).

  5. “Observador atento” se me disser de quem é a fotografia terei muito gosto em identificá-la, não conheço a sua origem. Fico a aguardar.

  6. Observador atento diz:

    A foto aqui publicada tem autor e origem. Um blogue não está isento do dever de respeitar os direitos de autor. Nem deveria ser necessário lembrar isso a um blogger que é ex-membro do regulador dos media, mas parece que em casa de ferreiro espeto de pau.

    Sobre o conteúdo da opinião diria que o melhor é não nos anteciparmos nos juízos de valor sobre o caso e seus protagonistas. Deixemos a ERC fazer o seu trabalho.

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