Os polícias, as notícias e as teorias da conspiração

É verdade que a PSP se pôs a jeito com a violenta carga sobre jornalistas e manifestantes no dia da greve geral e que já não é a primeira vez que este tipo de atitudes levanta dúvidas sobre a preparação da Polícia para lidar com o direito de manifestação que assiste aos cidadãos. Compreende-se, pois, a onda de indignação que varreu a imprensa e as redes sociais contra a actuação da polícia.

Mas já não se compreende tão bem que se critique a Polícia por se preocupar com a imagem da instituição e dos seus profissionais e por inscrever nos seus planos de actividades a necessidade de ter pessoal habilitado para perceber as lógicas de funcionamento dos media, acompanhando as notícias que a envolvam.  

O excerto a seguir reproduzido explora uma expressão desadequada que consta do Relatório da PSP – “combater notícias menos positivas” – cujo sentido se compreende muito bem. A linguagem “guerreira” não possui significado para além de, precisamente, revelar a  necessidade de formação dos agentes da autoridade para lidarem com uma sociedade onde o primado da imagem se sobrepõe ou conflitua com os poderes a que as polícias tradicionalmente obedecem. Não se percebe é o espanto que parece transparecer da notícia pelo facto de a PSP estar preocupada com a imagem. Ainda bem que está e que reconhece que tem que a melhorar, o que implica melhorar a sua própria actuação.

As notícias que vieram a público sobre os “treinos” e as “ameaças” que eram esperadas por ocasião da greve geral, vieram revelar uma vez mais que, a par da impreparação para lidar com os media, também há na PSP quem organize “fugas” de informação para jornalistas “amigos” (as “fugas” pressupõem “confiança” entre as partes). Aliás, na Polícia como noutras instituições há sempre alguém com acesso a informação “protegida” que se encarrega de “tramar” um superior hierárquico ou um companheiro, servindo-se precisamente de “boas relações com a imprensa”.

Já me aconteceu ter alunos de mestrado e de outras pós-graduações, numa cadeira de Comunicação Institucional, que  exerciam funções mais ou menos formais  de porta-vozes, de instituições militares ou  “para-militares”. Parte da matéria versava  precisamente sobre o funcionamento dos dois “campos”: os media e as forças de segurança, em democracia, as funções e os papéis de cada um, os códigos de ética e de deontológia que os vinculavam, o acesso e a gestão da informação, incluindo análise de casos etc.. Não percebo, pois, porque razão alguns jornalistas  pensam que as polícias (e também os governos e os partidos) não podem nem devem estudar e analisar os media, nomeadamente o jornalismo, sem que se isso surja como uma espécie de conspiração…

E os banqueiros e outros “homens” do dinheiro e dos negócios, podem?Esses talvez não precisem, têm quem o faça por eles…

É nestas coisas que, por vezes, afloram entre nós, resquícios de algum atraso…

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