Caso Público/Relvas: a oportunidade para se conhecer o pensamento teórico do ministro sobre o jornalismo

Enquanto não são desocultados todos os factos que envolvem o jornal Público e o ministro Miguel Relvas, na sequência da audição parlamentar do ministro sobre as secretas, os portugueses vão tendo oportunidade de conhecer melhor o pensamento doutrinário de Miguel Relvas e de membros proeminentes do PSD sobre os media e  jornalismo, graças ao “contra-ataque” que nos últimos dias levaram a cabo nos media.

Nos seus comentários, para além de profissões de fé na “inocência” do ministro, o líder da  distrital do Porto do PSD, entre outras “tiradas”, afirmou este pensamento original e profundíssimo:  ninguém vai imaginar que existiram pressões sobre os jornalistas” até porque estes não são “suscetíveis de sofrer esse tipo de pressões, porque têm um código de ética que não lhes permite”.

Por seu turno, o deputado Matos Correia, que na audição de Relvas no Parlamento se distinguiu pela defesa empolgada do ministro, declarou que  os media não se deveriam colocar no papel da oposição ao Governo” .

Mas o mais “brilhante” na defesa de Relvas, foi ele próprio, num “relatório” divulgado pela RTP e pela generalidade dos órgãos de comunicação social que terá sido enviado à ERC. Nesse documento, o ministro, na sequência do que já fizera na audição parlamentar, entrega-se a um trabalho analítico e expositivo sobre o “dever ser” do jornalismo. Recorda o ministro, citando o provedor do Público, que “a pressa condiciona a informação produzida diariamente (…) factor que mais contribui com frequência para a adulteração do rigor jornalístico”, identificando de seguida as notícias que considera não serem rigorosas.

No mesmo documento, Relvas acusa a jornalista do Público de escrever as suas notícias “num estilo de “jornalismo interpretativo” e de usar uma “técnica conhecida”: “construir um quadro narrativo inicial e tudo fazer depois para que a realidade se adapte a esse quadro.”

O ministro necessita, contudo, de actualizar as suas teorias sobre o jornalismo. Por exemplo, o “jornalismo interpretativo” é uma realidade identificada desde os anos sessenta do século vinte, primeiro nos EUA e depois na Europa, em que o papel do jornalista como analista e intérprete dos factos, mais interessado no “porquê” do que no “quê”, se tornou predominante. O “jornalismo interpretativo” está, aliás, associado ao chamado ” jornalismo de referência”, (de que o jornal Público se reclama) que corresponde, por outro lado, a um modelo cujos traços são o esforço interpretativo aliado ao pendor informativo e ao distanciamento crítico. 

Em Portugal  o “jornalismo interpretativo”  conheceu idêntico desenvolvimento, embora tardiamente face à Europa e aos EUA.

As críticas e preocupações do ministro Miguel Relvas e dos dirigentes do PSD são, naturalmente, legítimas. O ministro pode, inclusivamente, ter razão em alguns aspectos menos rigorosos da cobertura da sua audição parlamentar, alguns dos quais foram corrigidos pelo próprio jornal. Mas isso não atenua nem explica as ameaças de devassa da vida privada da jornalista nem o boicote à informação sobre o governo que lhe são imputadas pelo jornal. E, sobre isso,  o “relatório” do ministro nada diz….


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3 respostas a Caso Público/Relvas: a oportunidade para se conhecer o pensamento teórico do ministro sobre o jornalismo

  1. Pingback: caso Público/Relvas: para além da verdade e da mentira, do real e do verosímil… | VAI E VEM

  2. Vicente Silva diz:

    De todas as as afirmações produzidas por M.Relvas e seus fieis correligionários poder-se -à tirar uma única conclusão:a orquestra carece de um maestro e o resultado está à vista;são fífias e mais fífias numa confusão geral.
    E, se foi assim, o mais grave de todo este imbróglio será o facto de o ministro ultrapassar a fasquia da ameaça para caír na área da chantagem o que, num estado de direito autêntico, o mínimo exigível seria a demissão pura e simples.

  3. De facto, há, pelo menos, duas perguntas a que o ministro Relvas terá que responder, se quiser ser esclarecedor. A saber: Pediu desculpa ao jornal porquê?
    Como tomou conhecimento de “detalhes da vida privada” da jornalista, detalhes que alegadamente ameaçou divulgar?

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