Hoje não me apetece comentar o caso Público/Relvas. Mas na frase sobre a vida privada da jornalista Maria José Oliveira, que ficámos a conhecer através do próprio jornal Público, que o ministro nega, há um pormenor que chamou a minha atenção.
A frase é a assinalada a vermelho:
"A meio da tarde de quarta-feira, 16 de Maio, o ministro- adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, telefonou à editora de Política do PÚBLICO, Leonete Botelho, e disse-lhe (...) iria divulgar na internet que a autora da notícia vive com um homem de um partido da oposição, nomeando o partido (...)."
Nessa frase, cada palavra do ministro tem certamente um sentido que ele pensou, mesmo dizendo-se em estado de “pressionado”. Analisando cada uma dessas palavras podemos questionar:
– Porque é que o ministro resolveu ir buscar este e não outro aspecto da vida privada da jornalista? (vida “amorosa” disse a SIC)
Ao usar esta frase no contexto em que o fez, o ministro mostrou que considera condenável ou, pelo menos, reprovável que uma jornalista “viv[a] com um homem de um partido da oposição”.
Mas na frase há várias partes que podem separar-se e pode até acontecer não serem todos os elementos da frase que o ministro condena mas apenas parte deles. Quais serão eles, então?
Será que o que o ministro condena é o facto de a jornalista “vive[r] com…” (isto é não ser casada com)? Ou será por ser “com um homem de um partido” ou por ser “de um partido da oposição”?
Por exemplo: se a jornalista em vez de “vive[r] com …” fosse casada” “com um homem de um partido da oposição” o ministro teria usado a mesma frase como ameaça?
E se a jornalista “vivesse com um homem”… do governo, continuava a ser coisa digna de ser divulgada na Internet?
E se fosse casada (em vez de “viver com”) “um homem de um partido da Oposição” seria também coisa “boa” para divulgar na net?
As dúvidas parecem razoáveis porque, por exemplo, há pelo menos uma jornalista portuguesa, famosa, que é casada “com um homem de um partido”… do Governo. Está na TVI e é a Judite de Sousa. Será que alguma vez ela recebeu uma ameaça semelhante do governo anterior por ser casada “com um homem de um partido da oposição”?
Em França, Anne Sinclair foi jornalista política quando o actual marido era ministro e quando estava na oposição. O mesmo com Christine Ockrent que continuou em funções quando o marido, Bernard Kouchner, era ministro e quando era da oposição. Nos EUA, Chirstiane Amanpour, era chefe do serviço internacional da CNN quando casou com o porta-voz do Pentágono. Para referir apenas casos mais conhecidos.
E temos François Hollande, novo presidente da França, que ” vive com…” uma jornalista, de seu nome Valérie Trierweiler…
Qual é então o elemento daquela frase que o ministro queria usar como ameaça? Não era certamente “viver com…”. Era ser” um homem da oposição”!
No fundo, o ministro pensa que uma jornalista que “vive com um homem de um partido da oposição” não é credível!
A frase é, pois, uma ameaça de devassa da vida privada com o objectivo de tentar afectar a sua credibilidade como jornalista. Que visão mesquinha!
Pingback: caso Público/Relvas: para além da verdade e da mentira, do real e do verosímil… | VAI E VEM
Miguel Loureiro, sim, foi casada com um dirigente do PS (hoje sem cargos partidários)
A presidente da AR não é, ou foi (sei lá…) com um dirigente do PS?
O post é interessante e mais do que justificado. Acontece que a «informação» do ministro não é verdadeira. E isso abre caminho a uma outra linha de argumentação
JAG