O provedor do Público analisa hoje o caso que opõe o jornal ao ministro Miguel Relvas. Fá-lo com a autoridade profissional e institucional reconhecida em todos os países democráticos ao provedor do leitor, a mais antiga instância de auto-regulação do jornalismo, na Europa e nos EUA.
Os documentos enunciadores dos princípios essenciais em que assentam a liberdade de imprensa e o direito à informação, encaram o jornalista como um cidadão sujeito, como qualquer outro, às leis em vigor no seu país, só aceitando, em matéria profissional, a orientação dos seus pares, excluindo toda a ingerência governamental ou outra. A apreciação do provedor é, assim, uma peça fundamental na avaliação deste caso.
Vale a pena ler não apenas a crónica do provedor mas também as respostas escritas às perguntas que ele dirigiu à direcção do jornal, à editora de política, e à jornalista visada pelo ministro Miguel Relvas e que publica no seu blog. Trata-se de documentos imprescindíveis para uma compreensão cabal não apenas dos factos ocorridos mas, sobretudo, porque pela primeira vez se conhecem, em discurso directo, as posições da editora e de Maria José Oliveira sobre os acontecimentos em que são protagonistas centrais.
Os documentos que o provedor junta à sua crónica de hoje são, por outro lado, importantes porque permitem aos leitores menos familiarizados com o jornalismo penetrar nos meandros do funcionamento da redacção do jornal como um espaço fortemente hierarquizado e controlado, no qual, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a publicação de uma peça é um acto sujeito a verificação sistemática.
Os depoimentos publicados pelo provedor são também uma oportunidade (rara) de constatar que, apesar dessa forte hierarquização, a redacção (não será, infelizmente, assim noutros meios) é também um espaço onde um/a jornalista questiona abertamente a sua hierarquia, dispõe e usa de instrumentos de recurso – o conselho de redacção – quando discorda das suas decisões.
Por tudo isso, independentemente da sensibilidade de que o caso se reveste e da manifesta tensão entre a direcção e o conselho de redacção, cada parte assumiu a defesa daquilo que para si era prioritário neste caso:
– a jornalista visada e o conselho de redacção, privilegiando o dever e o direito de levarem os factos ao conhecimento dos leitores, reivindicando um espaço de autonomia para afirmação de posições críticas para com a direcção, espaço legitimado, aliás, pelo papel que lhe é ética e legalmente conferido.
Um jornal de referência como o Público será capaz de um esforço de auto-análise e de auto-crítica para, em diálogo interno, identificar o que, neste triste caso, correu bem e correu mal.