No mundo da política, só à esquerda do PS parece não haver constrangimentos na condenação do ministro mesmo antes de “provados” os factos vindos a público sobre o envolvimento do ministro. Percebe-se porquê. No PCP e no BE não há ex-governantes porque as figuras do chamado “gonçalvismo” e do “PREC” há muito que se eclipsaram. Talvez não sejam mais “puros” que os outros três, mas não estiveram ou não estão próximos do poder…do poder que deslumbra, cega e pode corromper.
No PS, reina a prudência na avaliação das notícias. Percebe-se que assim seja tendo em conta a experiência recente e actual -veja-se a “crucificação” permanente de Sócrates e as “ameaças”, sempre pendentes, nas audições nas comissões parlamentares onde há sempre alguém pronto a arrasar o governo anterior.
No PSD, nem se fala. Há os que abertamente dão a cara nas televisões em defesa de Relvas – José Luís Arnaut, Matos Correia, Morais Sarmento; há os mais exigentes no apuramento dos factos – António Capucho, Paulo Rangel e Marcelo que avisou desde início para o “erro de casting” que seria Relvas no Governo; e há Passos Coelho, “refugiado” na abstracção de frases como “não é timbre deste Governo fazer pressão…”, talvez por saber que não pode dizer “não é timbre deste ministro fazer pressão…”. No CDS, o silêncio é a regra, ou não fosse Paulo Portas o único político a sério deste Governo.
No campo do jornalismo, os estragos podem ser, a longo prazo, avassaladores: é o jornalista citado no processo como tendo dito (por sms) a Relvas, então dirigente do PSD, que o ex-espião “os tem no sítio” (por se ter demitido do SIED), confirmando implicitamente o tipo de relacionamento com políticos que facilita confidências desta natureza e, por arrasto, “desculpando” a “conversa” de Relvas com a editora do Público; é o jornalista adjunto do ministro a ajudar o ex-espião a passar a ex-colegas nas redacções uma armadilha política montada para inculpar um partido da oposição acerca de um envelope com a lista dos contactos de outro jornalista; é a cumplicidade com as “fontes do processo”, que dizem mais do que aquilo que está no próprio processo; e como se não bastasse, é o jornal cuja jornalista foi vítima de coação – o Público – a envolver-se em guerras internas que dão muito jeito ao ministro Relvas.
Por último, mas não menos importante, ficou a saber-se através de um “esclarecimento” do Público que o conteúdo da ameaça do ministro Relvas ao dizer que divulgaria na internet que a jornalista Maria José Oliveira “vive com um homem de um partido da oposição”, é falso.
Temos, assim, que a ameaça à jornalista Maria José Oliveira é também difamação.
Estes são alguns dos estragos provocados pelo caso Público/Relvas, que é possível antever.