O discurso do 10 de Junho: eles ouviram…mas não sabem que não sabem

Sampaio da Nóvoa, o reitor da Universidade de Lisboa, proferiu um discurso notável na cerimónia oficial do 10 de Junho que pode ser ouvido aqui (roubado a Ana Paula Fitas) ou lido aqui.

Nas horas seguintes, as televisões e as rádios não o citaram. Não fosse a cerimónia ser transmitida em directo e muitos teriam perdido uma lúcida exposição sobre o País, rara no discurso de outros académicos que no  palco do 10 de Junho não resistiram a discursos politicamente correctos ou pseudo-eruditos.

Sampaio da Nóvoa falou de coisas que sabemos mas que não são ditas porque quem tem voz na sociedade não as conhece ou não as valoriza. Disse ele: “Não é por sermos um país pequeno que devem ser pequenas as nossas ambições. O tamanho não conta; o que conta, e muito, é o conhecimento e a ciência.(…) Existe conhecimento. Existe ciência. Existe tecnologia. Mas não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego. É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Em palavras simples e precisas, Sampaio da Nóvoa fez o diagnóstico da situação do País e apontou soluções.  O seu discurso cairá em saco roto porque não é o do economês imposto pela troika de Vítor Gaspar, religiosamente seguido por Passos Coelho. Por isso o ignoram.

Sintonizados com Sampaio da Nóvoa estiveram hoje muitos portugueses, jovens e menos jovens,  que estudam, investigam, ensinam e lutam por uma oportunidade para contribuírem para a “questão central do país”, tal como identificada pelo orador.

Ao contrário, os que nos governam, os que fazem as leis que nos regem e os que as aplicam, não sabem  que “[o] futuro, (…) está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento.”

Eles não sabem e nós não podemos ensiná-los porque eles não sabem que não sabem.

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3 respostas a O discurso do 10 de Junho: eles ouviram…mas não sabem que não sabem

  1. Assim é, Vieira: os que antes criticaram as políticas de educação e investigação dos governos Sócrates exibem agora o trabalho então feito como o único que têm para mostrar…

  2. carlos jardim diz:

    Isto um dia vai abaixo, existem muitas quintas em portugal e de muros altos.
    Dentro das quintas fazem-se cozidos, e vendem-se a saldo.
    Terá que haver novas regulamentações, para proteger os assalariados….
    Exemplo: Primeiro está o amigo, veja o caso de Relvas, depois está o resto, direitos, democracia,……..cidadania….falta integridade a muitos ” bem falantes “

  3. Vieira diz:

    Pois é. Acho que tem toda a razão mas, se bem me recordo, esse senhor reitor foi muito prolífico em críticas ao anterior governo. Mal ou bem, foi o governo que mais contribuiu para a melhoria das condições do ensino e, principalmente, da investigação (acho eu, acho eu)
    Assim sendo, temos pena.

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