D. Januário, o Guerrilheiro

A separação entre Igreja e Estado é um bem. É boa para a Igreja. E é boa para o Estado.

Mas nada impede que um sacerdote, um bispo ou o Cardeal se pronunciem “politicamente” (e até com dureza) porque, sendo a Causa da Igreja a dos homens e mulheres concretos, a defesa intransigente do mais fraco é não só um direito como deve até ser encarada como dever fundamental.

Isto dito: com grande pena minha, a intervenção de ontem na televisão de D. Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas, foi panfletária (pelos termos utilizados), incendiária (pela violência discursiva), injusta (pela generalização de corrupção que imputa a todos os membros do Governo) e inútil (porque o efeito-repetição de adjectivos e imagens bombásticos desqualifica de forma drástica a mensagem). Ver aqui ou aqui.

Claro que quem apoia o Governo critica D. Januário. Claro que quem é contra o Governo o aplaude. Claro que, e quando do Governo anterior, as declarações de D. Januário suscitaram aplauso e críticas que se invertiam.

 

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Pode D. Januário invocar que isso é irrelevante e que por tal não deve responder. E que, como homem de Deus, reforça-se a sua liberdade (o seu dever ético) de zurzir na injustiça, de defender quem sofre e precisa.

Mas, sendo homem de Deus, não pode D. Januário esquecer que também é Igreja e também a representa, para o bem e para o mal.

Nem pode, além disso, desvalorizar o aproveitamento e instrumentalização que os homens farão da sua palavra; ou esquecer que o que diz é político (no sentido de causa pública), mas pode depressa transformar-se em político-partidário; não pode ignorar o que seja o sound bite (nem deixar de o combater) ou a acusação não comprovada.

E não pode esquecer nada disto porque, como homem de Deus que é, tem de rejeitar sempre que os fins justifiquem os meios.

Sobretudo, não deve ignorar que a justiça por que intercede com a sua palavra pode ser varrida e destroçada pela forma. Nunca a forma deveria prevalecer sobre a substância e remetê-la para o quarto dos fundos: porque, nesse caso, pode por reacção estar a favorecer-se a injustiça.

A sua palavra, por isso, deve ter o peso que advém da sabedoria, de carrear a justiça, a serenidade, e não a acusação fácil. Porque isso é a negação do seu múnus.

Porque D. Januário não pode reduzir-se ao estatuto de simples guerrilheiro da palavra mediática. E porque para isso não falta quem: basta vaguear pelas redes sociais.

Tragicamente, e tenho a certeza que de forma involuntária, D. Januário conseguiu com (mais) este episódio reforçar uma afirmação fortíssima da sua intervenção de ontem: “O problema é civilizacional, porque é ético”.

Declaração de interesses: conheço D. Januário há décadas, tenho por ele estima e continuarei a ter consideração. Até por isso me senti obrigado a escrever este texto.

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