A corrupção e as percepções sobre a dita


O secretário-geral do Conselho de Prevenção da Corrupção [CPC] reagiu ontem às críticas do vice-presidente da Transparência e Integridade — Associação Cívica (TIAC), Paulo Morais, contestando as acusações de ausência de iniciativa e classificando as declarações relacionadas com o CPC como “difamatórias”: (…) O conselho, quando profere afirmações, profere-as após estudo e não com base em meras percepções”, rematou Tavares numa clara referência ao trabalho do TIAC.” (Público, 19/07/2012)

Esta troca de “mimos” entre responsáveis do Conselho de Prevenção da Corrupção e da Transparência Internacional é interessante e merece análise. Senão vejamos:

Os media dão sempre grande relevo às declarações de responsáveis da Transparência Internacional e  aos dados deste organismo sobre os índices da percepção da corrupção em Portugal, como referi aquiaqui, aqui, aqui ….

De facto, não apenas a corrupção é um tema incontornável como as declarações de membros do TIAC são sempre “de arromba”. De tal modo que os menos precavidos nem se dão conta de que os dados do TIAC se referem a percepções dos portugueses e não a dados concretos resultantes de casos de corrupção apurados, investigados e julgados. Pelo contrário, os dados sobre estes últimos revelam uma realidade muito diferente daquela que resulta das percepções dos portugueses ouvidos nos inquéritos do TIAC.

Cria-se então uma espécie de círculo vicioso:

O TIAC coloca a corrupção na agenda mediática; os media dão grande destaque às declarações dos seus responsáveis e aos dados sobre a percepção que os portugueses têm da corrupção; o tema preenche debates, conferências, colóquios que, por seu turno, merecem mais cobertura mediática; os portugueses são inquiridos sobre o que pensam da corrupção e sobre as fontes onde obtêm a informação. As respostas só podem ser as que são: Portugal está cheio de corruptos (sobretudo políticos) e as  principais fontes de informação dos respondentes são…a televisão e a imprensa.

A polémica entre o Conselho de Prevenção da Corrupção e o TIAC não é, pois, inesperada. 

O TIAC tem o mérito de colocar o tema da corrupção na agenda pública e mediática. Pode também ter razão nas acusações que faz, por exemplo, quanto a uma maior exigência nas incompatibilidades dos deputados. Mas corre o risco de contribuir para as percepções negativas dos portugueses sobre a corrupção em Portugal

O  Conselho de Prevenção da Corrupção trabalha, por seu turno, sobre realidades e não sobre percepções. Mas corre também o risco de a percepção que os portugueses têm da sua própria intervenção ser demasiado formal e pouco eficiente.

E, entretanto, a corrupção existe, não necessariamente onde é mais falada. E, como se pressente em casos como o Monte Branco e as privatizações da REN e da EDP, envolvem protagonistas que raramente fazem primeiras páginas de jornais e aberturas de telejornais.   

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3 respostas a A corrupção e as percepções sobre a dita

  1. Pingback: Corrupção: tomar a parte pelo todo | VAI E VEM

  2. Não, não conheço, parece que ninguém liga ao que eles dizem, que eu tenha lido, apenas um deputado do CDS reagiu às suspeitas levantadas pelos elementos do TIAP contra si.

  3. FM diz:

    Conhece algum processo contra os elementos portugueses da T.I.?

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