À volta dos blogs

Escrever um artigo para uma revista académica sobre blogs políticos em Portugal, fazer a sua caracterização, penetração, influência, não é tarefa fácil. Comecei por equacionar algumas questões:   

1. O que é um blog?

Em termos gerais, pode definir-se um blog como um “jornal”  interactivo que permite a troca de informação entre utilizadores (bloggers). É também uma forma de expressão e de auto-representação do/s seu/s autor/es.

Um blog possui as seguintes características: a) inclui  informação, sob a forma de posts, e organiza-se por ordem inversa à ordem cronológica; b)  é actualizado de forma dinâmica pelo autor ou autores; c)  pode funcionar como diário pessoal, como forum de discussão técnica, ou “especializar-se” em determinados temas (política, artes e cultura, media, desporto, culinária, moda, etc.); d) incorpora além de texto, imagens –  fotografia, vídeo – links para outros blogs,  sites, foruns, etc., criando  interconecção e interdependência com outros sítios na internet; e) permite interacção sob a forma de comentários com os “visitantes” podendo os comentários ser abertos a todo o público (sem moderação por parte do blogger); ou parcialmente abertos, isto é, permitidos   apenas em alguns posts, cuja decisão cabe ao blogger ; f) os posts não são editados mas podem ser actualizados, corrigidos e apagados pelo blogger; g) criar e manter um blog é fácil e gratuito. Em alguns casos pode até gerar receita para o blogger; h) o blogger tem acesso às estatísticas do blog: número e média de visitas diárias, mensais, anuais, totais; tem também acesso às regiões do mundo a partir das quais se verificam os acessos. Sabe quais são os posts mais visitados e mais comentados.

Responder a esta primeira questão não se apresentou difícil. Vejamos as seguintes.

2. Existem motores de busca/agregadores, portugueses, que organizem “categorias temáticas” de blogs? 

O melhor que encontrei foi o blogómetro do Aventar. Fornece um sistema de classificação dos blogs portugueses de acordo com as estatísticas do sitemeter. Cinge-se apenas aos blogs inscritos nessa ferramenta.

Uma pesquisa no Google não adiantou muito mais mas permitiu encontrar coisas espantosas. Por exemplo, fui parar a um agregador intitulado “site com os blogs mais visitados de Portugal”  mas  o link conduziu-me  ao que chama de “sites interessantes”  (uma espécie de “apanhados” do género dos que passam em canais de televisão, alguns bem divertidos, diga-se).

A busca não ajudou. Há ainda os agregadores da Sapo organizados por tags mas incluem só os blogs da Sapo. Na tag “politica” encontrei de tudo.

Passei então a outra questão:

3. Como definir, para os objectivos do meu artigo, um blog político?

Sem pretender complicar a questão tentei uma busca por palavra-chave  – blogs sobre política –  encontrei uma “comunidade de bloggers de língua portuguesa  que agrupa 388 blogs (portugueses e brasileiros). Também não serve para o meu objectivo mas deu para ver que o conceito de “blog político” se centra sobretudo em blogs de políticos ou de partidos. 

Com ajuda de Paulo Querido cheguei  aqui. É uma boa pista, que necessita contudo de ser trabalhada  e actualizada.

Começou a desenhar-se em mim a convicção de que a dificuldade maior será construir uma amostra minimamente consistente de blogs políticos.

Decidi então, que o mais eficaz será realizar várias operações: a) seleccionar os 10 blogs  mais visitados nos vários agregadores; b)  analisar  os posts publicados por esses blogs durante um período temporal limitado; c)  classificar, segundo categorias temáticas previamente estabelecidas, os temas de cada post publicados nesse período; seleccionar como amostra para a análise seguinte os 10 blogs com maior número de posts na categoria temática “política”. Tratando-se de um artigo exploratório, a amostra não pretende ser representativa.

Realizada esta etapa, as seguintes não se apresentam mais fáceis : trata-se de proceder à análise qualitativa desses blogs e de responder à seguinte questão: que interacção  existe (como se traduz) entre os blogs políticos da amostra e os seus visitantes, e como contribuem esses blogs para o debate  político?

Aceitam-se sugestões….

Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Política, Sociedade, Sociologia dos Média. ligação permanente.

8 respostas a À volta dos blogs

  1. Posso compreender as suas objecções aos meus “sublinhados”. Porque quando nos meus tempos de jornalista alguém me dava um discurso sublinhado para eu “tratar” eu ficava “estragada” e raramente pegava nos sublinhados…

  2. Muito bem. Eu também adoro sublinhar livros: mas aí os textos não são meus e sublinhá-los é uma forma de me apropriar dos textos alheios e de tornar mais visível aquilo que deles mais me interessou nessa leitura. Sublinhar textos da nossa própria autoria é que me parece um exercício mais artificioso que parece abdicar da função sintáctica da língua: é a própria sintaxe que me permite topicalizar ou sublinhar o que quero dizer (a voz passiva topicaliza o objecto em detrimento do sujeito, uma subordinativa estabelece uma relação hieráquica entre orações, um epíteto focaliza o sujeito, etc., etc.). Para o leitor, como eu, ler textos tão repletos de negritos dá uma estranha e nada confortável sensação de sermos alvo de um certo paternalismo por parte do autor, algo de comparável à linguagem repleta de onomotopeias que certos adultos utilizam para designar o mundo às crianças. Não estou a dizer que seja essa a sua intenção, repare, mas é essa a sensação que me provoca enquanto leitor dos seus textos.

  3. Claro, se um blog é direccionado para divulgação de textos científicos ou de resultados de investigações científicas é óbvio que não é o facto de esses textos serem publicados num blog que muda a natureza do texto. Mas não era disso que estávamos a “falar”. Também conheço projectos científicos que têm blogs agregados precisamente para divulgação de resultados. Hoje em dia os projectos de investigação apresentados a instâncias nacionais e internacionais têm quase sempre um site ou um blog associados, até porque a divulgação é um dos elementos valorizasos.
    Quanto aos negritos, gosto de sublinhar livros, artigos, etc., quase não sei ler sem ter um lápis na mão. Os negritosdo blog são uma forma de sublinhar…sem lápis.

  4. Não enunciei qualquer critério e imagina mal. Basta-me fazer um copy/paste de um artigo científico qualquer num post para esse post ser um artigo científico (remediatização). Um blogue como o de Henry Jenkins, por exemplo, já foi usado para publicar textos científicos que depois foram publicados ipsis verbis em revistas com peer review (ou seja, aí, a remediatização serviu apenas para conferir legitamação por parte da doxa especializada). Em Portugal, por exemplo, conheço uma dezena de investigadores que faz precisamente o mesmo e com excelentes resultados.

    Vejo que moderou o uso de negritos no seu último post. Fiquei contente e sensibilizado pelo gesto.

  5. O seu critério sobre o que é um texto científico é deveras original! Imagino que os seus comentários sejam também textos científicos.

  6. Quando afirma que “um post não é propriamente um texto científico” está a cometer um erro semelhante a uma frase do tipo “um livro não é propriamente um texto científico”. O post é um medium (tal como um livro) e não um género textual. Pode se adaptar melhor a determinados géneros textuais, mas é absolutamente transversal a todos. Não faltam por aí posts que são genuínos textos científicos.

  7. João Pedro Costa: obrigada pela sua “avaliação” do meu post, imagino que seja um expert na matéria, embora não identifique nos seus comentários a “benevolência” para com os “ignorantes” que geralmente se encontra nos “sábios”.
    Sobre bibliografia, obrigada pela referência mas um post não é propriamente um texto científico. Mas retribuo a gentileza com alguns artigos científicos uns mais recentes outros menos, embora possivelmente o meus interesse académico sobre a blogosfera não seja o seu. Aqui vão:

    Brian Ekdale, Kang Namkoong, Timothy K.F. Fung and David D. Perlmutter Why blog? (then and now): exploring the motivations for blogging by popular American political bloggers 2010 12: 217

    Valentina Hlebec, Katja Lozar Manfreda and Vasja Vehovar. The social support networks of internet users New Media Society 2006 8: 9.

    Wilson Lowrey, Scott Parrott and Tom Meade. When blogs become organizations. Journalism 2011 12: 243

    Klaus Bruhn Jensen and Rasmus Helles. The internet as a cultural forum: Implications for research. New Media Society 2011 13: 517

    Mohammed el-Nawawy and Sahar Khamis. Political Blogging and (Re) Envisioning the Virtual Public Sphere: Muslim- Christian Discourses in Two Egyptian Blogs. The International Journal of Press/Politics 2011 16: 234

    E sobre os meus “sublinhados” (a bold) nos posts….registo a sua opinião.

  8. Há problemas sérios na sua resposta à pergunta 1): impute características à plataforma que pertencem ao medium, confunde interactividade (característica tecnológica) com participação (característica sócio-tecnológica) e elenca, de forma pouco criteriosa, uma série de características de relevância e importância díspar. Ainda assim, como é óbvio, o seu esforço é útil, meritório e relativamente exaustivo para lançar uma hipotética discussão em torno do tema. Mas há bibliografia (muita e boa) e estranho o facto de não referir nenhuma. Deixo-lhe aqui a referência da melhor obra que conheço sobre a plataforma: RETTBERG, Jill Walker (2008), Blogging, Cambridge: Polity Press.

    Na minha condição de leitor assíduo e entusiasta, permite-me que lhe faça, por fim, um reparo: o seu habitual (ab)uso do negrito, para além de não acrescentar absolutamente nada aos seus textos, começam a tornar quase tudo o que escreve praticamente ilegível. A mim, pelo menos, irrita-me solenemente. E desconfio que não serei o único a pensar o mesmo.

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