O futuro dos media visto por um director de jornal

(…) o jornalismo precisa de mudanças, accionistas ou outras, precisa de romper o círculo vicioso em que caiu, por responsabilidades próprias e crises alheias. Porque o sector será tanto mais independente e credível quanto mais sustentáveis forem os órgãos de comunicação social. O maior risco, para o sector, para o próprio País, não são as pressões políticas, é a dependência económica.”

Estas palavras são do director do Diário Económico, jornalista António Costa, num artigo de sua autoria publicado ontem, intitulado “As notícias vão mudar“.

Os artigo merece reflexão, não apenas pelo seu conteúdo substantivo mas também pelo momento e o enquadramento em que surge.

Em primeiro lugar, não é vulgar  o director de um jornal de economia, afirmar, por sua iniciativa, que a “dependência económica” constitui um “risco maior” para o jornalismo do que “as pressões políticas”. Apesar de se tratar de um facto indesmentível para quem  estuda o sector dos media, raramente é assumido, sobretudo por um director, para mais, do jornal  líder no segmento da imprensa económica.

Acresce que o Diário Económico é propriedade da Ongoing, o grupo  empresarial  que nos últimos tempos tem dado que falar precisamente pelas suas ligações ao poder político e, ultimamente, também às “secretas”, alegadamente com o objectivo de ganhar poder e influência para a expansão do grupo em projectos editoriais, tais como o canal da RTP a privatizar (sobre o qual a Ongoing veio a declarar-se desinteressada depois dos episódios ex-espião-Silva-Carvalho-ministro-Miguel-Relvas-Expresso).

O director do Diário Económico escreve pois este artigo no momento em que o grupo que o detém tem poucas ou nenhumas esperanças de vir a tornar-se, por si só, um grupo de media influente em Portugal, pelo menos ao nível do audiovisual. O seu artigo é, nos tempos que correm, um acto de coragem. Mas é também quase fruto de um instinto de defesa e um alerta para o que aí vem.

O quadro que António Costa traça do sector da comunicação social é um quadro negro mas realista. O artigo é particularmente  duro para o principal opositor da Ongoing – a Impresa, de Pinto Balsemão – ao escrever que  “[o] mercado está bloqueado, ninguém arrisca, ninguém quer fazer diferente, as tentativas para inovar são limitadas, e o operador que mudou a comunicação social em Portugal, a Impresa, de Francisco Pinto Balsemão, de facto, o último dos patrões-jornalistas, acaba por ser o seu maior obstáculo.”

Também as referências aos “dois grandes grupos de ‘papel’, a Cofina e a Controlinveste, não são animadoras. E o primeiro, a Cofina, proprietário do seu principal concorrente no sector – o Jornal de Negócios – merece-lhe uma referência cáustica: “Paulo Fernandes, [o líder da Cofina] tem a Altri, está na comunicação social como em qualquer outro negócio, e tanto olha para a RTP como vende no minuto em que lhe puserem um cheque à frente, com os zeros necessários.” 

artigo do director do Diário Económico é um artigo de leituras múltiplas, em qualquer caso, essencial para compreender o que se está a passar e o que aí vem no sector da comunicação social.

E é precisamente sobre “o que aí vem” que António Costa deixa a nota mais negra: “do lado da procura só se vêem angolanos, que não conhecemos, e que até se podem dar ao luxo de escolher. E no momento em que o fizerem, se as eleições legislativas em Agosto o permitirem, vai ser como um dominó, as peças vão começar a cair e a questão é saber quem serão os novos donos do jogo.”

António Costa tem razão quando no seu artigo escreve a frase que me levou a escrever este post: “O maior risco, para o sector, para o próprio País, não são as pressões políticas, é a dependência económica.”

Concordo: já é assim, só que vai ser ainda pior.

 

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