O primeiro-ministro confessa que não sabe o que se entende por serviço público

O primeiro-ministro quebrou o silêncio sobre a RTP mas foi pior a emenda que o soneto. As suas palavras foram vazias de conteúdo, o tom inseguro e hesitante.  Confirmam-se as piores suspeitas: a sua cultura sobre o que é o serviço público na tradição democrática e europeia é igual a zero.

O  primeiro-ministro assumiu finalmente em voz alta que não sabe “o que é que se entende por serviço público” e que é preciso defini-lo primeiro antes de decidir o que fazer com a RTP. Na lógica dessa ignorância confessada, o primeiro-ministro citou, servilmente, o mentor do modelo: “António Borges referiu com muita claraza que a concessão era uma hipótese que está a ser estudada”, disse Passos qual discípulo remetendo para o “mestre”  – um lapsus linguae que representa a confissão de que as declarações de Borges à TVI foram concertadas consigo e com Miguel Relvas.

Se o primeiro-ministro não sabe o que é o serviço público, pode pedir aos seus representantes em Bruxelas que lhe organizem um dossiê sobre os documentos da União Europeia relativos ao serviço público de radio e televisão na Europa, incluindo as obrigações dos Estados-Membros sobre a matéria.

Se isso lhe der muito trabalho pode ler os contratos de concessão da televisão  e da rádio ainda em vigor. Encontrará neles, sobretudo no preâmbulo do primeiro, uma ampla explanação do conceito e remissão para documentos do Conselho da Europa e da União Europeia que vinculam Portugal e que possivelmente o seu ministro Relvas e o grupo de consultores dirigido por António Borges desconhecem.

E quanto a não saber “o que os portugueses estão dispostos a pagar pelo serviço público”, mande fazer uma sondagem ou convoque um referendo ou encontre outro método de consulta, já que  não sabe ou não quer ler os sinais que desde a entrevista de Borges à TVI se manifestam por toda a parte.

Mas uma coisa o primeiro-ministro podia já ter concluído: pelas manifestações vindas de todos os quadrantes da vida do país, os portugueses não apoiam o desmantelamento da RTP e não se queixam dos poucos cêntimos diários que pagam na factura da electricidade para ter serviço público de rádio e televisão.

O primeiro-ministro prefere fechar os olhos ao verdadeiro alarme social que o anúncio de António Borges, feito com o seu beneplácito, provocou no país. Chame-lhe “tabu” ou “histeria”… mas a haver histéricos nesta história procure-os à sua volta.

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7 respostas a O primeiro-ministro confessa que não sabe o que se entende por serviço público

  1. João Pinhel diz:

    Tenho 70 anos e fiz a quarta classe aos 65. Não percebo nada de Economia, mas ouvi o Primeiro Ministro dizer que a RTP gasta 1.000.000 de euros por dia. 1 Milhão de Euros POR DIA !?!?! Se a RTP tem 1000 trabalhadores e se o peso do salario é de 10% de toda a despesa, então as pessoas da RTP recebem em média 30mil euros por mês brutos (seguranças sociais que a RTP pagará incluído). Se a RTP tem menos de 1000 trabalhadores ou se o peso salarial é mais de 10% então ainda é mais escandaloso que se gaste 1 milhão de euros por dia !!

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  4. Se o primeiro-ministro não soubesse apenas o que é serviço público, talvez até não fosse difícil de lhe explicar. Mas na realidade tem muitas deficiências, mais complicadas para aprender a curto prazo. Passos Coelho não está habilitado para o cargo que lhe foi incubido, em muitos aspectos. Infelizmente, também não foi muito selectivo nas escolhas para a sua comitiva governamental. Mas essa infelicidade deve-se ao facto de ele não saber nada de nada, incluindo serviço público, como ele próprio confessa. Analisando bem, parece que os últimos governos de Portugal têm funcionado como um curso de novas oportunidades para aprendizes de política. O problema é que se torna um curso bastante dispendioso para os portugueses, que têm de pagar as proprinas de aprendizagem.

  5. ricardo diz:

    Também não disse que ia passar o iva para 23%, nem que ia retirar o 13º e o 14ª mês e retirou.

  6. Emanuel,
    Cada um escolhe, de entre as promessas eleitorais do PSD, o que entende. É a consequência de o primeiro-ministro ter feito o mesmo, isto é, ele só quer cumprir a promessa de privatização da RTP, por isso temos o direito de questionar a legitimidade para o fazer, já que fomos obrigados a aceitar o que ele não cumpriu.

  7. Emanuel diz:

    Passos não precisa de fazer nenhuma sondagem ou referendo. A alienação de um dos canais da RTP figura no programa de governo do partido que venceu as últimas eleições legislativas. E se restar um pingo de honestidade ao primeiro-ministro ele deve executar o que prometeu. Mas parece que desta vez os socráticos já não dão importância ao que foi prometido por PSD

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