Os ódios de estimação em torno da RTP

A discussão suscitada pelo anúncio da possibilidade de concessão do serviço público de rádio e televisão veio revelar uma clivagem no grupo profissional dos jornalistas que se manifesta em artigos, manchetes e títulos de jornais.

De um lado, encontram-se jornalistas que em algum momento das suas vidas se cruzaram com a RTP e ficaram desiludidos ou ressabiados, seja porque não conseguiram um contrato, um convite para um programa, uma qualquer colaboração ou  entrada nos seus quadros, ou tendo conseguido colaborar com a empresa saíram incompatibilizados com algum membro da hierarquia do momento. Neste nível, a discussão assume, em alguns casos, argumentos quase “terroristas” e de um inusitado radicalismo contra o serviço público, contra a empresa, ou até pequenos ou grandes “ódios de estimação” contra as pessoas.

Há depois outro grupo, também de  jornalistas, que detendo posições de relevo nos respectivos jornais têm acesso a informação seleccionada directamente oriunda dos gabinetes ministeriais de Passos, Relvas e Gaspar, ligados ao processo RTP. Tivemos ontem exemplos nas capas  do Jornal de Notícias e do  manchetes “gritantes” com origem em “fontes ligadas ao processo” que nunca dão a cara como é próprio do spin. (É claro que pouco depois, a RTP esclareceu o assunto  e hoje lá tiveram que “meter a viola no saco”; ao menos, o JN cumpriu a regra da equidade: tendo feito manchete com a primeira, fez também manchete com a segunda).

Noutro grupo de jornalistas encontramos como enfoque central e quase único o argumento económico-financeiro. São pessoas de quem não se conhecia qualquer pensamento sobre a RTP mas que surgem agora como ferozes defensores do erário público contra o “despesismo” o “sorvedouro” de dinheiros públicos,  ou os carros e os “vencimentos dos directores”. Algumas têm ou podem vir a ter interesse directo ou indirecto (não assumido) na privatização ou concessão da RTP e empenham-se em sublinhar os gastos, o sacrifício para os cidadãos, etc..

Na discussão estritamente político-partidária  as posições dos partidos da oposição em defesa do serviço público prestado por uma empresa pública  são coerentes. A posição do PS, afirmada pelo líder, de fazer regressar o serviço público à esfera pública em caso de o actual governo o liquidar, deve ser  anotada como uma promessa cujo cumprimento lhe seria exigido caso essa circunstância viesse a verificar-se.

A confusão vem do lado da maioria governamental. O CDS, apesar da firmeza das declarações iniciais de alguns dirigentes, revelando incomodidade e desconhecimento, mantém uma posição ambígua, com o líder Paulo Portas em silêncio o que se presta a todas as interpretações. Fragilizado politicamente pelo assunto dos submarinos que hoje voltou em grande força com a notícia do DN, Portas pode não vir a ter condições de negociação com o seu parceiro de Governo para fazer vingar os princípios que sempre defendeu quanto ao serviço público de radio e televisão.

Quanto ao PSD, não se conhece uma posição firme e coerente. O que há são posições, ora do líder parlamentar, a considerar a solução de Borges como “um ovo de Colombo”, ora a da vice-presidente, Teresa Leal Coelho, a afirmar que “o partido vai defender o serviço público”, ora a de Paulo Rangel a afirmar-se “contra a privatização da RTP“.

Há, finalmente, o grupo dos comentadores, geralmente académicos da área ou de áreas afins,  que centram a discussão no plano da defesa dos princípios e valores, no plano da Constituição, da história e da cultura do País, e no plano internacional das obrigações contraídas por Portugal no seio da UE quanto ao serviço público de rádio e televisão.

A RTP é afinal, também para os seus detractores, muito mais importante do que eles gostariam que fosse. Poucas instituições “mexem” assim com a sociedade portuguesa. 

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