Foi um primeiro-ministro de semblante fechado, olhar baço e mortiço que surgiu perante os portugueses na entrevista à RTP, em S. Bento, mas sem os pavões dos jardins do palácio que costumavam “sonorizar” as entrevistas de Sócrates.
O que impressionou nesta entrevista não foi tanto a persistência na defesa de políticas unanimemente consideradas erradas e causadoras de mais pobreza e mais infelicidade para os portugueses. Impressionou sobretudo a cegueira e o desprezo que revela relativamente às vozes oriundas de toda a parte e também do seu próprio partido, e a prepotência com que afirmou que nem lhe passa pela cabeça que os deputados da maioria não aprovem o “seu” orçamento, seja ele o que for, ou a arrogância com que mandou Belmiro de Azevedo baixar os preços aproveitando os “benefícios” da taxa social única.
A dificuldade que revelou em responder às perguntas concretas e incisivas dos jornalistas é um sinal do amadorismo com que as medidas anunciadas foram concebidas, nomeadamente quando lhe foi perguntado como irá funcionar a taxa social única. A cegueira que mostrou em relação à troika fá-lo parecer um aluno pouco inteligente a querer mostrar aos professores que faz os trabalhos de casa que lhe mandam fazer e ainda ultrapassa o que lhe é pedido. No fundo, o primeiro-ministro tinha medo de chumbar no quinto exame da troika, como a Grécia, como acabou por dizer.
A recusa em comentar as declarações de Manuela Ferreira Leite e de outras figuras do PSD que se têm manifestado contra as suas políticas mostraram um primeiro-ministro orgulhoso e vingativo.
O facto principal da entrevista do primeiro-ministro à RTP parece ter sido saber se Portas foi ou não informado sobre as medidas de austeridade.
O primeiro-ministro afirmou que informou Portas mas, na SIC N, Miguel Sousa Tavares garantiu que não. Quem fala verdade, afinal?
Se o rigor das palavras do primeiro-ministro nesta questão for igual ao que revelou sobre os custos da RTP – repetindo a mentira oficial de que custa 1 milhão de euros por dia – estamos conversados.