O pai urso e os ursinhos (uma fábula do século XXI)

I. O pai urso chegou uma certo dia à toca e disse aos seus ursinhos, reunidos na sala:

– Filhos, têm sido os vossos avós a gerir o dinheiro da nossa toca. Mas eles estão descontrolados, gastaram que se fartaram, empanturraram-se de mel e ainda querem agora obrigar-vos a dar uma parte do vosso dinheiro e das vossas avelãs…

– A sério, pai? Mas isso não pode ser! Então, que é que vamos fazer?

– Filhos, só vejo uma solução para vos salvar: despachar os avós, e quanto mais depressa melhor. E eu prometo que ponho as nossas contas em ordem sem vos pedir nada. Basta cortar em todas as despesas da casa. Ora, como eu passo a gerir essas despesas, estejam tranquilos, é muito fácil cortar forte e feio: e vocês nem vão notar!

– Iuuupi, pai. Grande ideia! Manda os avós embora, e ficas tu a mandar nisto tudo. E obrigado, pai, por seres tão querido para nós e nos ires salvar!

Nessa noite, os ursinhos foram dormir muito felizes. O pai urso ia salvá-los.

II. Meses depois, o pai urso chegou à toca e convocou outra vez os ursinhos:

– Filhos, continuam muito más as contas da casa, e a culpa é só, e exclusivamente, dos avós que antes geriram o nosso dinheiro. Eu sou muito competente, mas a verdade é que os bancos ursinos não me largam. Além disso, os avós assinaram um acordo de financiamento antes de irem embora: e agora ninguém me empresta mel para pagar as dívidas se eu não reduzir imenso as despesas que faço e se não fizer sofrer um bocadinho. Por isso, prometo outra vez que vou gastar muito menos; e garanto-vos que quem tem razão são os três ursos muito sabedores que estabeleceram o acordo de financiamento. E eu até vos digo, como já lhes disse, que vou ser muito mais exigente do que eles! Por isso, ursinhos, vão ter que me ajudar.

– Ó pai, mas tu tinhas prometido que tudo se resolvia sem nos fazeres sofrer – disseram os ursinhos, em sobressalto…

– Não foi bem assim, filhos – disse o pai urso, com ar grave. E não se esqueçam de que assim vocês vão crescer e ser muito menos mariquinhas. Há males que vêm por bem: acreditem, porque eu sou muito experiente e da vida de urso sei eu. E, desculpem, afinal vocês vão ter que dar uma boa parte do dinheiro que foram ganhando a lavar o carro do vizinho e a vender sumos na festa da escola. Além disso, de cada vez que conseguirem arranjar mel, vão ter que me dar uma percentagem suplementar. E, meus queridos ursinhos, muitos de vós vão ter de sair de casa e ir trabalhar para outro sítio, porque eu não tenho condições de vos garantir um futuro… Tem de ser, filhotes.

– Mas, pai, tu tinhas-nos dito que não nos tiravas o dinheiro, e que isso era uma parvoíce e uma mentira dos avós…e nem sequer fomos nós que gastámos a mais. Não é justo! Além disso, o que possamos ter gasto em excesso vamos ser nós, e só nós, a pagar: e tu já disseste que não nos podes ajudar…Não nos parece nada bem, a sério!

– É verdade, filhos, mas somos uma família de ursos muito unida, não é? E garanto-vos que eu é que vou gastar muito menos e todos vamos ficar a ganhar. Olhem, até fiz um orçamento muito profissional para a nossa família: vejam que, com estes sacrifícios, vamos apertar o cinto, mas estes são os resultados que eu garanto que vamos alcançar. Se eu vos exijo e afinal vos tiro o vosso dinheiro e o vosso mel, o mínimo que posso fazer é cumprir à risca este orçamento, porque o fiz de forma muito científica. O meu plano é mesmo infalível. Desta vez é que vai ser!

– Pronto, pai, acreditamos em ti, porque percebes muito mais de contas do que nós. Vamos confiar. Também, que remédio, não é?

III. Um ano depois, o pai urso chegou à toca juntou outra vez os filhos na sala:

– Filhos, estais mais magrinhos e escanzelados, mas cada vez mais fortes. Fiz tudo com um imenso amor de pai e infinita competência. Mas as minhas previsões saíram todas furadas. Hoje, sou um urso desolado, e acreditem que me custa mais e estou a sofrer mais do que vós, meus queridos filhinhos. O meu orçamento era e continua a ser fantástico – perfeito mesmo – mas estourou. A culpa não é minha, as contas domésticas é que são imprevisíveis. E nunca se esqueçam, a culpa é dos avós ursos, nunca minha. De qualquer modo, nem vale a pena explicar-vos: é demasiado complicado para as vossas cabecinhas tontas… Por isso, vou cortar-vos de vez as vossas mesadas; e o que vocês ganharam a lavar carros e a vender sumos…vão ter que me dar uma percentagem cada vez maior. E o mel, passem-no para cá: porque para o ano é que vai ser.

– O quêêêêêê?

Do diário do pai urso:

Estou chocado. Os ursinhos já não gostam de mim nem me falam, e passam a vida a protestar e a insultar-me. Patifes, eu que fiz tudo para os educar nos sãos princípios! Não consigo perceber tanta ingratidão, eu que me empenhei tanto em salvá-los…

Moral da história:

Ursos sim. Mas nem tanto.

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