O Público e o eterno retorno dos despedimentos nos media

O despedimento de 48 jornalistas e de outros profissionais no jornal Público, segue-se a outros que nos últimos meses têm atingido a imprensa, a rádio e a televisão. Na actual conjuntura parece uma notícia banal. Todos os dias sabemos de trabalhadores despedidos, empresas encerradas, dramas que se tornaram o quotidiano de muitas pessoas.

Dizem a administração e a direcção do jornal que despedem pessoas para salvar o jornal. Dizem a comissão de trabalhadores e o conselho de redacção que os despedimentos anunciados inviabilizam a continuidade do Público enquanto órgão de comunicação social de referência. Parecem declarações contraditórias mas não o são.

Sabemos que, salvo um ou dois títulos, os órgãos de comunicação social nacionais são economicamente deficitários. As vendas são escassas e as receitas publicitárias não cobrem os custos. Acumulam, pois, prejuízos.

Sabemos, também, que os media se tornaram um negócio cuja mercadoria são as notícias e, no caso do audiovisual, também outros conteúdos. Existem para captar audiências que depois são “vendidas” aos investidores publicitários. É esta a lógica do negócio. Não há aqui novidade nem escândalo, visto que a lógica de uma empresa comercial é o lucro.

Não obstante ser esta a lógica de empresas comerciais e de grupos económicos,  em Portugal as empresas de media, detentoras de jornais, rádios e televisões, vão sobrevivendo apesar dos prejuízos, partindo sempre para “reestruturações” através de despedimentos de jornalistas e de outros profissionais. Muitas vezes, recuperam e voltam a contratar mas a “doença” reincide e o ciclo repete-se: novas “reestruturações” e novos despedimentos. Por vezes, encerram.

Belmiro de Azevedo não é um homem dos media nem os media são o seu negócio. No entanto, teve até agora  capacidade e vontade de manter um jornal que tem sido, apesar de intervalos menos felizes, um título de referência na imprensa portuguesa. Mas nunca escondeu que o jornal é para dar lucro.

Podemos perguntar  porque razão a sobrevivência do Público é agora colocada quando o jornal nunca, ou raramente, deu lucro. Será que os fundamentos que levaram a Sonae a criar o Público e a entrar num negócio que não era o seu “core business” deixaram de existir?

O engenheiro Belmiro de Azevedo não tem, obviamente, obrigação de manter um jornal. Mas sabe que o Público lhe acrescentou notoriedade, influência, prestígio social. Mesmo que não  procurasse nem precisasse deles. Criou também uma “responsabilidade social” para com os seus trabalhadores que fizeram do seu jornal, um grande jornal e, sobretudo, para com os portugueses. Não pode agora voltar as costas e deixar o País sem a referência que o Público já hoje é.

(Analisar as causas mais profundas da situação dos media fica para outra ocasião)

Esta entrada foi publicada em Imprensa, Jornalismo, Sociedade, Sociologia dos Média. ligação permanente.

2 respostas a O Público e o eterno retorno dos despedimentos nos media

  1. Victor diz:

    O Público, há muito tempo que deixou de ser um jornal de refrência. Com o sabujo do Fernandes, tornou-se mesmo num pasquim do mais reles. Prestou o serviço que o merceeiro pediu, dado que depois daquele travão do Sócrates à “compra da PT”, o referido ficou com um melão que cobria Almeirim. Já teve momentos tão maus na sua existência, que chegou a ser dado nas mercearias.
    E, nem mesmo neste último episódio do “DR” Relvas ficou muito bem na fotografia.
    Prevejo mesmo que a última edição um dia, tenha na capa uma fotografia de Sócrates e uma do sabujo a rir-se por trás.

  2. Dias Santos diz:

    Concordo com grande parte da análise, mas não com a afirmação que o Público é um jornal de referência. O público perdeu tal estatuto com as inqualificáveis campanhas de ataque pessoal a Sócrates e a membros do seu governo (a campanha de ataques a Lurdes Rodrigues e à sua equipa pode ter dado mais uns leitores ao Público de entre alguns professores alienados, mas afetou o tal estatuto do jornal). Não vejo aliás as diferenças entre as campanhas do Público contra Sócrates e as do Correio da Manhã! Poderá dizer-se que tal se deveu a um agente político a fazer de jornalista, o antigo diretor José Manuel Fernandes, mas a verdade é que o jornal não se retratou depois disso…

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