O tempo, o local e o modo do comentário presidencial no Facebook

Este comentário do Presidente da República no Facebook constitui uma declaração de “guerra” ao governo, não apenas pelo seu conteúdo mas sobretudo pelo momento em que é publicado. De facto, o Presidente está a dizer ao primeiro-ministro e ao ministro das Finanças que as declarações da presidente do FMI não podem ser ignoradas, pelo que “não é correto exigir a um país sujeito a um processo de ajustamento orçamental [leia-se a Portugal] que cumpra a todo o custo um objetivo de défice público fixado em termos nominais.”  

Publicado na véspera de entrega do Orçamento de Estado no Parlamento, depois de conhecidas quatro versões e de críticas violentas vindas de todos os quadrantes e sectores da sociedade, nomeadamente ligados aos partidos da maioria governamental, o comentário do Presidente constitui uma machadada no governo e no seu Orçamento.

Ocorre perguntar porque razão o Presidente não agiu mais cedo, nos bastidores como  costuma fazer, demovendo o Governo de persistir numa política que está a destruir a economia do País e a vida das famílias e das empresas.

É legítimo pensar que ou o Presidente não foi consultado pelo governo no decorrer da preparação do Orçamento, ou foi-o e o governo não ouviu os seus conselhos e opiniões.

A escolha do Facebook para a divulgação de um comentário que só pode ser lido como uma dura crítica à incapacidade de afirmação do governo junto dos parceiros europeus, em defesa dos interesses de Portugal, significa que o Presidente quis chegar aos públicos que frequentam as redes sociais, sem a intermediação  dos media tradicionais. Quis, no fundo, que a sua mensagem se tornasse  “viral”.  

Seja como for, a intervenção do Presidente, no tempo, no local e no modo que a enquadram, não pode deixar de ter consequências. Ou então os altos dirigentes do País, Presidente incluído, perderam definitivamente o sentido de Estado e o respeito pelos portugueses.

 

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