Nestes dias que correm em que o país parece à deriva, sem que se vislumbre uma saída que restitua alguma dignidade ao Estado e um mínimo de esperança aos portugueses, fui ler os “retratos” que os jornalistas Hugo Filipe Coelho e David Dinis traçam no livro Resgatados, sobre “os bastidores da ajuda financeira a Portugal”.
É uma espécie de revisitação de um passado muito recente que não permite ainda julgamentos definitivos só possíveis com maior distanciamento temporal e emocional face aos acontecimentos relatados.
Construído em torno de momentos e acontecimentos-chave, o livro prende o leitor pela soma de pormenores que enquadraram alguns desses momentos e acontecimentos, numa narrativa em estilo cinematográfico, intercalada de flash-backs que ajudam a compôr cada história e cada protagonista.
Não se trata de um livro de memórias nem de uma investigação histórica. Para isso, faltam-lhe algumas das regras que caracterizam a investigação científica, entre as quais, a identificação das fontes primárias e secundárias, que permitam, a investigadores e leitores em geral, a consulta dessas fontes para confirmação ou aprofundamento dos factos relatados.
Os autores assumem que se trata de um registo essencialmente descritivo, baseado em depoimentos de protagonistas e testemunhas directas dos acontecimentos que antecederam o pedido de resgate de Portugal junto das instâncias europeias e do FMI, os quais, por opção dos autores (e dos próprios depoentes) preferiram manter o anonimato, para assim poderem falar mais livremente. Essa opção permitiu aos autores construírem uma narrativa meio romanceada, por vezes poética e emotiva, repleta de descrições de estados de alma. Contudo, o que ganhou em impacto perdeu em rigor.
Cada um encontrará neste livro o que quiser encontrar: da obstinação de Sócrates em resistir ao resgate ao cinismo e calculismo de Passos em precipitar a queda do Governo ao despeito e aversão do Presidente relativamente a José Sócrates. Com ou sem fontes, adivinhando-se aqui e ali a quem pertencem certos testemunhos, o livro é um belo “fresco” dos últimos meses do Governo de José Sócrates, constituindo-se doravante como leitura obrigatória para historiadores e outros investigadores que queiram aprofundar os acontecimentos e os papéis dos diferentes protagonistas no período de 2009-2011.
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ainda bem que já alguém escreve hoje a História.