Sobre escutas, mensageiros e boas notícias

Escreve o Público de hoje em editorial:

Sobre o mesmo assunto, escreve ainda o Público, na última página:

No Diário de Notícias, Pedro Tadeu, alinha na mesma ideia: “Após a publicação do facto – que qualquer jornal com acesso a essa informação teria de noticiar, sob pena de legitimamente ser acusado de estar a proteger interesses não jornalísticos (…)”.

A tese dos três autores é, no essencial, a seguinte: uma vez na posse de uma informação em segredo de justiça (escutas ou qualquer peça processual) o jornalista não tem alternativa que não seja publicar, sob pena de (na visão mais radical, de Pedro Tadeu) “legitimamente ser acusado de estar a proteger interesses não jornalísticos” ou apesar de, na visão do Público, haver “receio de que quem as revela possa estar a exercer um poder em função de interesses corporativos.”

Ora, em meu entender, ambas as visões do problema esquecem o princípio essencial no jornalismo de que a fonte é sempre parte interessada. Ao publicarem peças processuais, escutas ou outras, em segredo de justiça, porque lhes chegam às mãos através de meios nem sempre passíveis de validação e contraditório, com o fundamento de que envolvendo figuras públicas não podem ser ignoradas para que os cidadãos saibam como funciona a política e a tomada de decisões, os jornalistas estão a ser instrumentalizados pelas fontes que lhes fazem chegar essas peças para que eles as publiquem.   

O jornalista não é um mensageiro. O jornalista constrói realidades, seleccionando alguns factos e acontecimentos, desprezando outros, trabalhando e investigando o que acha relevante e interessante de acordo com a sua visão da realidade.  

Tem razão o Público quando afirma que “o papel da imprensa nem sempre coincide com o papel das magistraturas.” De facto, quase nunca coincide. A imprensa precisa de “uma boa notícia” mas será muito mau para o jornalismo que para a conseguir se deixe instrumentalizar por interesses alheios sejam das magistraturas ou de outros agentes sociais ou políticos.

A questão que o Público coloca à  Procuradora-geral da República, se vai proceder da mesma maneira (ilibar o visado e abrir um inquérito à quebra do segredo de justiça, como fez com o primeiro-ministro) se o visado não for uma figura pública parece ignorar que criar uma suspeita sobre um governante, arruína completa e definitivamente a sua vida pública impedindo-o praticamente do exercício de funções políticas. Tal como no jornalismo, a credibilidade, a seriedade, a transparência, são a pedra-de-toque das suas funções.  Uma vez postas em causa, ainda que sem fundamento, resta-lhe mudar de vida, se é que lhes resta mesmo vida…

Esta constatação não representa ou significa que um governante ou um político mereçam maior protecção da honra que qualquer outro cidadão. Nada disso. Porém, sendo como são fortemente escrutinados, o que não acontece com os cidadãos em geral,  também devem ser igualmente respeitados na sua honra, até que a justiça prove o contrário.

Parecem coisas simples mas pelos vistos não o são.  

Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Imprensa, Jornalismo, Justiça, Política com as etiquetas . ligação permanente.

2 respostas a Sobre escutas, mensageiros e boas notícias

  1. lidia drummond diz:

    Mandei um mail à nova Procuradora, que na minha modesta opinião não é uma Procuradora mas uma TRÍADE, o Pai – o filho e a Joana. Nesse mail eu demonstrei a munha admiração. sobre as suas declarações publicas e em comunicado < O 1º Ministro não está suspeito "NESTES CRIMES" ( MONTE BRANCO ) nas escutas divulgadas. Ora bem, o Procurador Rosario entregou a disquette das escutas ao DCIAP. este organismo entregou a Disquette ao Ex Procurador que a enviou no dia da sua despedida, para o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça que se encontrava em Timor e nesse dia ainda não tinha regressado. Como pode a Procuradora dizer que nas escutas não havia nenhum "DESTES CRIMES" a incriminar o 1º Ministro se quando ela tomou posse a disquette já lá não estava? Terá sido A TRIADE que tem acesso a tudo, e que fez crime de segredo de justiça e lhe disse o conteudo da disquette? Começa mal

  2. EGR diz:

    Conforme diz são coisas simplles de entender. A questão está. a meu ver, no facto de eles não estarem interessados em perceber.
    Continuo a pensar que, a prazo, se vão arrepender mas infelizmente já sera tarde.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s