Freeport: o tempo em que as notícias corriam atrás dos jornalistas…

Leio nos jornais que Manuela Moura Guedes desistiu da queixa por difamação contra José Sócrates, dizendo que o tempo e os acontecimentos já se encarregaram de dar razão às notícias da TVI sobre o então primeiro-ministro e que  José Sócrates “não retira uma palavra ao que disse sobre a qualidade jornalística” do programa da TVI dirigido por Manuela Moura Guedes, que “durante semanas o atacou com recurso à mentira, manipulação dos factos e a juízos impróprios numa democracia”.

Não foram semanas, foram meses a fio…de Janeiro a Julho de 2009 

Esta é uma das histórias mais promíscuas sobre as relações entre jornalismo e justiça a que se assistiu em Portugal nos últimos anos. Aqueles que a conheceram por dentro e denunciaram a trama eram e são chamados de “socratistas” e de “viúvas” de Sócrates. Entretanto,  alguns dos grandes “jornalistas de investigação” que construíram o enredo com a ajuda de polícias e magistrados quase desapareceram de circulação, como a própria Moura Guedes abandonada por quem lhe deu  novo palco após a sua saída da TVI.

A notícia da desistência da queixa contra o ex primeiro-ministro levou-me a reler o depoimento de Moura Guedes no âmbito  do procedimento aberto  pela ERC (disponível no processo) por ocasião do fim do Jornal Nacional de Sexta, da responsabilidade da agora desistente. Vale a pena ler este pequeno excerto para perceber como o Freeport  começou e se desenvolveu:

” MMG – Nós tínhamos começado a investigar [o Freeport] e percebi que o [jornal] Sol também tinha estado a investigar. Na televisão é muito mais complicado pôr-se qualquer coisa no ar do que num jornal, a imagem é muito mais difícil. No jornal escreve-se, diz-se que foi uma fonte, nós temos que apresentar as coisas. Quando comecei a ver as notícias da Felícia Cabrita, telefonei-lhe e disse que estava também a investigar e era só eu, eu e um jornalista. Disse-lhe: “Olha, se tiveres mais coisas, eu tenho algumas para troca”. E portanto começámos nisto. Passado algum tempo ela [Felícia Cabrita] ligou-me a dizer: “Olha, ainda estás interessada nesse acordo?”. Eu disse: “Estou”. Ela disse-me: “Então, olha, o Sol também está, o que é que achas?”. 

“E fizemos um acordo: eles passavam-nos à sexta-feira aquilo que tinham, nós divulgávamos a notícia do Sol. Eles provavelmente venderam muito mais, na altura, porque saíam ao sábado [no dia seguinte à transmissão do Jornal Nacional de Sexta]. E assim foi durante algumas semanas, eles foram por capítulos. Só que nós começámos a autonomizar-nos, fizemos a nossa própria investigação. Largámos o Sol e começámos nós próprios a partir dali a fazer a nossa investigação. O Sol continuou a fazer a dele. A partir dali continuámos a escavar e a ver o que é que havia. E, como sabe, nestas coisas ou se tem credibilidade ou não se tem e as coisas, a certa altura, vêm ter connosco. (…)”

Pois….”As coisas vêm ter connosco…”

Era um tempo em que as notícias corriam atrás dos jornalistas…

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2 respostas a Freeport: o tempo em que as notícias corriam atrás dos jornalistas…

  1. S. Carvalho diz:

    Talvez o mais “triste” de muitos momentos “tristes” que a comunicação social portuguesa tem protagonizado nos últimos anos. Algo de que os (verdadeiros) profissionais da dita C.S. se devem envergonhar.

  2. rosa Marques diz:

    A verdade está a vir ao de cima como o azeite, essa senhora enganou-me a mim e a todos os portugueses, uma das culpadas de Portugal chegar onde chegou e o pior é que continua a ir lá um senhor ao jornal de domingo a tentar enganar e o pior é que ainda consegue enganar muitos e ainda com aquela cara de gozo assim como os da laia dele , qd afirmam que a culpa foi do governo anterior. Grandes invejosos não chegam aos calcanhares ded José Sócrates que eu e muitos mais agora percebemos que o que ele queria era modernizar Portugal. Grandes bandidos destruiram Portugal

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